Ser psico

Mais um texto dedicado para o público estudante de psicologia!

O primeiro atendimento é algo que – mal imagina a pessoa que está sentada na nossa frente – aflige bastante o estudante de psicologia/psicólogo recém-formado. Como se portar? O que falar? E se a pessoa chorar? E se a pessoa ficar quieta? E se ela falar demais? O que eu visto? O que eu pergunto?  O que eu faço? O que minha abordagem postulava mesmo? E se eu errar? E se falar alguma coisa que seja errado? Não devia ter falado aquilo!

Ensinam-nos muito sobre teoria, o que autor  X pensou, sobre o que não fazer, laudos, relatórios… A psicologia é uma profissão que se constrói na parte prática, e nem sempre a teoria é viável para uma dada realidade. Dessa maneira, a parte prática é imprescindível, e é a partir dela que irá se lapidar o profissional que começa a surgir na universidade.

Uma pessoa que busca terapia, muitas vezes, não teve espaço para ser acolhida e ouvida durante sua vida. Parece pouco, mas a escute. Independente da abordagem, quando uma pessoa relata o que se passa na sua vida, passa a ter diversos insights por ela mesma. A narrativa – ou seja, contar sua história – é algo que poucas pessoas tem oportunidade de fazer e a apropriação da mesma é de suma importância. Portanto, mesmo que pareça pouco, escute o que essa pessoa tem a dizer.

E se a pessoa começar a chorar? Deixe-a chorar. E se a pessoa ficar quieta? Deixe-a ficar quieta. E se a pessoa falar demais? Deixe-a falar. Em um primeiro momento, o importante é fornecer o acolhimento. Um espaço para que a pessoa possa se colocar sem julgamentos, ser ela mesma. Importante que o ambiente torne-se confortável, sem pressões. Cada abordagem interpreta o silêncio de uma maneira, a psicanálise, por exemplo, deixa estar, já a Terapia Cognitivo-Comportamental trabalha com a fala. Um convite de uma maneira sutil, como “você está mais quieto(a) hoje…” já pode ser o suficiente para desencadear  uma fala.

O que eu falo? E se eu falar alguma coisa errada? Dentro do limite ético e do bom-senso, o paciente/cliente também não é uma pessoa indefesa. Há casos e casos, mas não é uma fala nossa que irá abalar a pessoa de tal forma que seja irreversível, que irá desestruturá-la. Todos possuem suas defesas, não há tanta fragilidade só porque alguém busca terapia. O resto do mundo não “pisa em ovos” só porque alguém está abalado. Mesmo que nossa fala possa vir a desestruturar a pessoa, há defesas e recursos para ampará-la. Às vezes, dentro do bom senso e educação, é necessário alguns solavancos na terapia. Precisamos “baixar a nossa bola”, não somos onipotentes, não temos tanto poder assim, tanto para um lado positivo quanto para o negativo.

O que eu pergunto? Muitas vezes, não precisamos perguntar nada. O simples “por que você procurou terapia?/como foi sua semana?/como você está?/então…” já trás muitas informações. No meio do caminho, as perguntas vão surgindo naturalmente na nossa cabeça. Será que eu pergunto? Na dúvida, pergunte!

Não devia ter falado aquilo! É muito fácil ser julgado pelos colegas ou mesmo supervisores quando se relata um caso. Mais fácil ainda quando alguém lhe fala o que deveria ter sido feito naquela situação. Clinicar é quase como dirigir: tudo acontece ao mesmo tempo. Escuta-se, elabora-se hipóteses e perguntas a serem feitas, relaciona-se com a teoria e ainda questiona-se o que é melhor a ser feito naquela situação.  Portanto, só quem estava ali naquele momento sabe a dificuldade de “dirigir” a sessão e o que julgava que era melhor a ser feito. Errou? Aprenda com seus erros. Clinicar é uma aprendizagem constante, mesmo para os mais experientes.

E o que a teoria psicológica e a abordagem dizem? Tudo isso fica como um plano de um fundo: É importante para que a peça aconteça, mas não é o protagonista do espetáculo. Esteja ali, escute e acolha. Por mais simplório que isso pareça, essa é a essência do nosso trabalho.

O texto não vale para a clínica, mas para a atuação em qualquer âmbito da psicologia. A expressão “sou todo ouvidos” nasceu para nós. Não se sai da universidade sabendo de tudo, muito pelo contrário! Egressa-se com uma sensação de  não saber nada. Mas não se engane, sabe-se muito. Ao mesmo tempo, que esse não saber nos retira da zona de conforto e da onipotência, também nos coloca em uma posição de humildade necessária para não se colocar no detentor do saber. Já dizia nosso conterrâneo Paulo Freire que “Não há saber mais ou saber menos, há saberes diferentes”. É muito fácil que o paciente/cliente nos coloque nesse lugar do saber, “doutor”, “professor” , mas é ela quem sabe de si mesma, só que com outro viés.

O raciocínio psicológico é construído aos poucos e basicamente na prática, com erros e acertos. É incrível a sensação de dever cumprido que nos invade quando recebemos uma melhora, um “obrigado” ou um sorriso no rosto.

Texto de Juliana S. Farias 

julianaJuliana S. Farias é psicóloga formada pela Universidade Federal de São Paulo (CRP: 06/130659). Pós-graduanda em adolescência e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente, trabalha em uma equoterapia e atendimento clínico. É apaixonada por terapia assistida por animais. Acredita na psicologia como forma de promoção de qualidade de vida para todos.

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