Quando a psicologia vira time de futebol

Ao se ver como psicólogo ou ali na retal final da universidade, é preciso tomar uma decisão sobre qual abordagem você irá se debruçar mais para ter como uma base teórica mais fundamentada da sua atuação profissional.  O que não significa em absoluto que você precisa desconsiderar o estudo de outras abordagens. Não há nenhum problema nisso até que vire time de futebol.

Outro dia vi um questionamento em um grupo de indicação de psicólogos sobre por qual motivo as pessoas sempre requisitavam psicólogos da abordagem TCC. Uma das respostas foi que era por indicação dos psiquiatras, pela TCC possuir diversas comprovações científicas. E o que se seguiu foi ataques a abordagem como ela sendo a responsável por uma solicitação capitalista de funcionamento mais imediatista dos indivíduos para produção, e por aí vai…

Com minha formação em Terapia Cognitivo Comportamental e como aluna de um curso de ABA (mais focado em Análise do Comportamento), já convivi bastante entre psicólogos comportamentais. Portanto, já tive que ouvir muita piadinha sobre outras abordagens, com risadinhas sobre não trabalhar com o silêncio, por exemplo. Da mesma forma, já vi muito psicanalista torcer o nariz quando eu digo seguir a abordagem da TCC ou insinuar que meu trabalho é raso.

A questão é… Por que temos que levar tudo como se fosse time de futebol? Certamente, quando fazemos escolhas, há alguma identificação, seja num nível mais consciente ou inconsciente. Porém, para algumas pessoas, quando se questiona algo ou convida para sair daquela zona de conforto, o conflito está feito.

O ponto não é defender uma abordagem ou outra. O ponto é que existem ótimos psicólogos TCC e péssimos psicólogos TCC. Há ótimos psicanalistas e há péssimos psicanalistas. Você pode saber muito de teoria e ser um profissional mais ou menos – como ouvi de uma psicóloga que estava recrutando para uma vaga de psicólogo clínico “tinha doutorado, mas não tinha empatia”. Você pode precisar estudar mais a teoria, mas saber manejar a situação melhor que muito professor. Há profissionais e profissionais. O seu fazer clínico pode ser raso seja qual abordagem for. Essa discussão que é um tanto rasa.

Temos que lembrar que a psicologia é um aprendizado constante. Cada dia de atuação é uma lição diferente. Cada congresso, curso, troca com o colega, supervisão, análise são sempre oportunidades de aprender algo novo. É preciso se debruçar em uma abordagem para não entender seu paciente/cliente como uma colcha de retalhos, mas mais ainda, é preciso sair da zona de conforto e ir beber das outras fontes também. Faço um curso de orientação profissional com base psicanalítica e eu amo! Eu adoro psicanálise winnicottiana, e assim que tiver oportunidade, quero me aprofundar na abordagem!

Também acredito que precisamos reconhecer quando determinada abordagem não beneficia determinado paciente/cliente. É preciso reconhecer nossos limites. É preciso ir estudar e correr atrás quando não se sabe. Há abordagens mais indicadas para determinadas situações, mas qualquer uma pode trabalhar com qualquer demanda.

Somos muitos plurais, diversos seres humanos, com trajetórias muito distintas. Seria um tanto bizarro se houvesse uma visão única dada a infinitude de modos de ser e estar. A leitura que cada abordagem uma faz é diferente, mas o objetivo é sempre de promover saúde. Enquanto a gente fica brigando por qual abordagem é melhor, acho que a psicologia tem questões muito mais urgentes a se resolver, não? Podíamos, para variar, se unir como classe e fazer coro no que realmente importa!

Gostou do texto? Compartilhe nas suas redes sociais!

Texto de Juliana S. Farias 

julianaJuliana S. Farias é psicóloga formada pela Universidade Federal de São Paulo (CRP: 06/130659). Pós-graduanda em adolescência e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente, trabalha em uma equoterapia e atendimento clínico. É apaixonada por terapia assistida por animais. Acredita na psicologia como forma de promoção de qualidade de vida para todos.

Contato : jusouzafarias@gmail.com 

Blog : Equilibra – Psicologia e Orientação Vocacional

0 Comments

Join the Conversation →

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *