Qual o melhor teste para orientação vocacional?

Algumas pessoas que procuram orientação profissional/vocacional esperam que seja aplicado um teste. Alguns psicólogos – ou qualquer outro profissional que venha a executar este trabalho – perguntam em grupos qual o melhor teste para fazer orientação.

Dentro da psicologia, há um movimento de crítica em relação ao uso de testes. Essa problematização é pensando que os testes são uma forma de reduzir a complexidade de uma pessoa, resumindo-a em um resultado. A meu ver, não há nenhum problema no uso de testes. A questão é o que o(a) psicólogo(a) em questão faz do teste. É pensado dentro de um contexto e de um momento, olhando aquele resultado como um recorte possível? Ou o resultado cai como uma sentença? Temos que tomar muito cuidado com um diagnóstico, pois a pessoa ou a sociedade pode tomar aquilo como verdade, e reduzir as possibilidades.

Dentro da orientação profissional, de onde surgiu essa ideia de teste? Essa ideia vem do pai da orientação, Frank Parsons, em meados de 1920. Ele pensou que as pessoas tinham uma determinada personalidade que se enquadraria dentro de uma ocupação. Porém, essa ideia é bastante mecanicista, com a visão de um ser humano que não sofre possui o mesmo ao longo de sua vida. Era perfeitamente cabível pensar essas coisas em um contexto estável e previsível. Por exemplo, a pessoa que gostava de cuidar de pessoas, podia escolher ser médico, e sua atuação iria se restringir na clínica ou no hospital, sem muitas alterações ao longo dos anos. Provavelmente começaria em uma atuação e se aposentaria fazendo a mesma coisa. A própria ideia de vocação, um chamado que vem de dentro, surgiu dessa mesma teoria.

Já o mundo do século XXI sofreu e sofre diversas mudanças. Vivemos em um contexto extremamente instável, imprevisível, flexível, globalizado, com referenciais difusos e com crises mundiais. As pessoas mudaram. As formas de relação mudaram. Os modos de trabalho também mudaram. Hoje, uma pessoa que se forma em medicina pode trabalhar em diversas coisas: cirurgia plástica, médicos sem fronteiras, clínica tradicional, área jurídica, trabalhista, etc. Em dois ou três anos pode mudar de especialidade sem grandes dificuldades. E provavelmente fará diversas atualizações ao longo da carreira porque as inovações tecnológicas e científicas o obrigam para tal.

Como é possível pensar em número limitado de personalidades que permite trabalhar em X, Y ou Z? Pensem comigo: como éramos em tecnologia em 2007 no Brasil? Máquinas fotográficas digitais, o primeiro celular touchscreen inventado pela Apple, baixávamos músicas para colocar nos mp3s, mp4s ou em algum modelo caríssimo dos primeiros iPods. Hoje temos armazenamento em nuvem, Spotify, diversos modelos de smartphone (que reúnem telefone, mp3, rádio, TV, computador em um só modelo) e umas invenções bizarras a la Black Mirror. Isso só falando na tecnologia. Os outros âmbitos também sofreram alterações drásticas!!

Se a tecnologia mudou dessa forma, o que diremos de nós mesmos? Muitas concepções, formas de se relacionar, jeitos de se pensar mudaram. Não penso como a geração de meus pais, mas também não penso como as gerações dos adolescentes de hoje – o que não é nem melhor, nem pior, apenas diferente. Diante de tudo isso, é um tanto estranho continuar com as ideias – que na época foram geniais e revolucionárias – de Frank Parsons nos dias de hoje. Ora, só por que gosto de ouvir meus amigos, eu vou ser psicóloga? Porque gostava de brincar com os animais quando criança, todos juravam que eu ia ser bióloga ou veterinária. Hoje, de fato, também atuo com animais, mas dentro da psicologia. Mas sou psicóloga clínica, orientadora profissional e me interesso por diversas coisas na diversidade da área. Dentro da mesmíssima formação de psicologia, alguns dos meus colegas foram para área acadêmica e estudam coisas tão complicadas que nem sei dizer o que fazem. Ou seja, para fazer psicologia, não precisavam nem gostar de pessoas ou ser empáticos, como é pintado no estereótipo de ser esse tipo de profissional.

Outra questão é que a maioria dos testes que temos no Brasil foram exportados. Foram adaptados para a realidade brasileira. Mas o que é a realidade brasileira? Se a gente não consegue chegar a um consenso dentro da língua portuguesa se é  “sinal” “semáforo”, “farol” ou “sinaleira”, que dirá de modos de ser e estar! Existem pessoas que vivem no Brasil, são brasileiros e não falam português. Quantas línguas indígenas existem dentro do Brasil? Ou vai me dizer que a realidade de um paulistano, um baiano e um gaúcho são todas iguais? O Brasil é muito grande, muito distinto para conseguirmos definir um número definido de personalidades e que cada uma delas funciona para uma ocupação específica.

O ponto chave é: as pessoas continuam com essa ideia de que orientação profissional pode ser reduzida a um teste. Se for utilizado como uma ferramenta, como um método de exploração, ótimo. Mas é de se questionar a personalidade X com aquele resultado Y do teste. Não podemos colar nos estereótipos dentro de uma profissão. Isso vale para quem orienta como para quem busca orientação. Há diversos modos de ser qualquer ocupação. É mais importante questionar as influências, motivações, fantasias, história de vida e diversas outras questões que permeiam a pessoa que está indecisa quanto ao futuro. E não se contentar com uma escolha, e sim como ela será posta em prática. Mas isso é assunto para outro texto!

 

Texto de Juliana S. Farias 

julianaJuliana S. Farias é psicóloga formada pela Universidade Federal de São Paulo (CRP: 06/130659). Pós-graduanda em adolescência e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente, trabalha em uma equoterapia e atendimento clínico. É apaixonada por terapia assistida por animais. Acredita na psicologia como forma de promoção de qualidade de vida para todos.

Contato : jusouzafarias@gmail.com 

Blog : Equilibra – Psicologia e Orientação Vocacional

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