Precisamos falar sobre a maternidade…

Precisamos falar sobre a maternidade

Pegando o gancho do texto passado sobre decepção, hoje irei abordar um pouquinho sobre as dificuldades da maternidade. Amor de mãe é algo grandioso, que inicia antes mesmo de conceber a criança, cresce junto com o ser no ventre e transborda ao pegar o filho pela primeira vez nos braços. É algo sagrado, belo e capaz de mover montanhas. Mas será que é sempre assim?

A sociedade, no geral, pinta a maternidade como algo perfeito, como uma propaganda de fraldas para bebê: troca de olhares, sorrisos, felicidade, o sol adentrando pela janela…  As dificuldades são romantizadas, o amor de mãe supera tudo. Não se pode falar sobre, a maternidade é algo sagrado, mãe é imaculada, perpassada por discursos de “você deveria agradecer porque (insira um motivo aqui)!”.

Qualquer um que já teve a oportunidade de cuidar de uma vida sabe o que é preocupação. Filhotes de cachorro e gato dão um imenso trabalho, destroem as coisas, choram de madrugada, o que nos rendem umas boas olheiras no dia seguinte. O ser humano é o único animal (sim, somos animais) que depende de outro humano para suprir suas necessidades durante um período bastante extenso. Chutando muito baixo, uma criança de até dois anos/três anos depende quase que exclusivamente dos adultos. Não vou entrar nem no mérito de que a adolescência está sendo estendida para além dos 18 anos senão irá ser muito pano para a manga.

Porém, multiplique todas as dificuldades por um número que eu nem sei estipular. Quem já teve a experiência da maternagem sabe o misto de sentimentos que passa, e como se desconstrói praticamente tudo o que se sabia, a própria ideia de vida e morte, e junto com o bebê nasce uma pessoa inteiramente nova – e tão desamparada quanto. A mulher por trás da mãe acaba por ser esquecida, é transmutada na exclusividade de função mãe.

A começar, que logo ao nascer, é normal sentir o “luto” após o nascimento do bebê. A mulher deixou de ser gestante, o filho ao nascer não está mais protegido dentro da barriga da mãe, perde-se a ligação – literal – entre mãe-bebê, a realidade do parto… Em suma, é o enfrentamento da perda e o nascimento de novas identidades. Tudo isso vem acompanhado por uma avalanche de sentimentos: tristeza, insegurança , medo… Sem contar com a culpa “meu bebê nasceu, eu não deveria estar sentindo isso!”. Não vou nem me estender sobre mães que tem filhos internados, que passam por cirurgia ou nascem com alguma deficiência, haja coração para esses momentos!

Um enorme sentimento de frustração é sentido quando as expectativas são frustradas, quando o ideal de mãe perfeita se quebra, e o filho não para de chorar de madrugada, mesmo após ter tentado de tudo. O sentimento de culpa, por não poucas vezes perder a paciência, e a solidão de carregar grande parte – quando não toda – da responsabilidade nas costas.

As mães amam seus filhos, com toda a força do mundo. Porém, isso não impede que, às vezes, tenham sentimentos de não querer ser mãe, de se sentirem cansadas, de quererem retornar naquele sábado sem ser mãe em que podia ficar na cama até meio dia…

A youtuber Hel Mother  trás em seu canal a desromantização  da maternidade: “amo meu filho, mas odeio ser mãe”. Em um dos vídeos, ela comenta sobre como foi julgada por ser mãe solteira, pincela sobre violência obstétrica, a exclusão da sociedade com quem é mãe, a dificuldade – ou a impossibilidade – de voltar ao mercado de trabalho, a desconstrução de falar sobre as dificuldades de maternidade sem ser taxada de uma péssima mãe, os machismos, a importância do feminismo nessa fase da vida e a necessidade de luta por direitos. “Criança é responsabilidade de todo mundo, não é só da mãe”.

Não falta gente para opinar sobre a vida da mulher desde muito cedo. Começa com a fala de que ela precisa arranjar um namorado, casar, ter um filho, ter dois filhos, ter um casal de crianças, e assim por diante… Na gestação, a barriga é pública e todo mundo pode passar a mão e opinar desde o que come até a roupa que veste. Depois que o filho vem ao mundo, a criação também é pública e todo mundo utiliza os dez dedos para apontar tudo o que a mãe está fazendo de errado. Quando a mulher resolve sair e curtir uma noite tão merecida, surge um interrogatório de onde está o filho e inúmeros julgamentos.

E o que fazer diante de tudo isso? Falar sobre as dificuldades da maternidade é um tabu, mas é necessário. A grande maioria experimenta esses sentimentos de frustração e sentem-se extremamente solitárias porque não são permitidas a reclamar com ninguém, acreditam que são péssimas pessoas. Retirar o peso das costas dessas mães, de que está tudo bem passar por essas situações, que elas devem se permitir a tirar um tempo para si, e de que dentro da possibilidade de cada uma, estão sendo as melhores mães.

Além disso, nós, como sociedade, devemos evitar qualquer tipo de cobrança e “conselhos”. A começar por retirar o julgamento das mulheres que não querem ser mães, de não ensinar nossas meninas que o único sentido obrigatório de suas vidas é casar e ser mães – se elas quiserem, tudo bem também! Podemos parar para pensar quantas vezes nossos “e quando vem o bebê?” feriu alguma mulher recém-casada que não pode ter filhos por n causas ou que quer dedicar sua vida a seu trabalho; quantas vezes o julgamento das mães adolescentes “na hora de fazer foi bom”… Quantas vezes nossos “você deveria” machucou alguém?

Permito-me a terminar utilizando de vários ditos populares: De boa intenção o inferno está cheio! Cada um sabe o que passa, todo mundo vive uma batalha interna da qual você não sabe nada a respeito, seja gentil sempre. E quando se trata de maternidade, parafraseando o modo de dizer da Bela Gil “você pode trocar o ‘deveria’ por  uma ajuda com os afazeres domésticos”, que se acumulam enquanto a mãe se dedica ao bebê.

Texto de Juliana S. Farias 

julianaJuliana S. Farias é psicóloga formada pela Universidade Federal de São Paulo (CRP: 06/130659). Pós-graduanda em adolescência e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente, trabalha em uma equoterapia e atendimento clínico. É apaixonada por terapia assistida por animais. Acredita na psicologia como forma de promoção de qualidade de vida para todos.

Contato : jusouzafarias@gmail.com 

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1 Comments

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  1. […] ainda sobre a realidade da maternidade, no mundo inteiro as mulheres sofrem de violência […]

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