Por que os rockeiros se suicidam?

Os amantes da música mal tinham se recuperado da morte do Chris Cornell do Soundgarden e recentemente fomos surpreendidos com mais uma notícia de suicídio de outro ícone do rock.

Quem não foi o adolescente dos anos 2000 que não gritou com Chester Bennington os refrões hits do Linkin Park, como In the End e Numb? Kurt Cobain (há controvérsias…) do Nirvana, Chorão e Champignon do Charlie Brown Jr., Amy Winehouse… sem contar os atores, como Robin Williams, são alguns dos nomes que tiraram a própria vida. (Um dia faço um texto só para o Kurt Cobain!) Além disso, boa parte das pessoas famosas se envolvem com álcool e drogas. O que nos faz pensar: Será que o meio artístico, mais especificamente o musical, é adoecedor, propiciando a problemas psicológicos como a depressão?

Em primeiro lugar, nosso papel como profissionais da saúde é também informar que depressão não é frescura, tem tratamento e quem comete suicídio não é covarde. Lendo os comentários por aí (nunca leiam os comentários!), vi as pessoas opinando que os rockeiros se matam porque usam droga, Chester foi insensível em deixar seis crianças órfãs e teve até apresentador de rádio dizendo que não ia mais tocar Linkin Park em seu programa porque o cantor foi covarde.

As pessoas cometem suicídio porque enxergam como a única saída restante para o alívio do sofrimento. Perderam esperanças de que a vida possa valer a pena, é o estopim de uma depressão profunda. Elxs ponderam muitas vezes antes de fazê-lo; dão diversos indícios como uso de drogas (ilícitas ou não), frases como “não aguento mais”, “quero sumir”; mostram apatia frente as situações e/ou passaram por um evento traumático. No caso de Chester, por exemplo, ele relatou já ter pensado em suicídio muitos anos atrás após ter sido abusado sexualmente quando criança. Na desesperança de Chester, I tried so hard and got so far. But in the end, it doesn’t even matter.

Como música não é minha especialidade, conversei sobre o meio artístico como adoecedor com uma pessoa que entende muito mais de música do que eu e querido colega de pós-graduação. Arthur Venturi Vansen é psicólogo e produtor cultural da Produtora MAKE e respondeu duas perguntinhas sobre o assunto:

Na sua opinião, como produtor, esse ambiente da fama/artístico/musical pode propiciar depressão?

Super propicia. E por vários motivos. Rola uma cobrança muito grande para atender as demandas dos fãs, as demandas dos patrocinadores, as demandas dos contratantes de shows e as demandas do mercado fonográfico como um todo. Algumas vezes, você vai contemplar as expectativas. Às vezes, não. E isso é muito complicado. Porque a galera coloca um pouquinho de si mesmo em cada música, e quando alguém rejeita isso, é como se rejeitasse uma parte da própria pessoa. Além disso tem toda questão do investimento pessoal. Trabalho com um grupo que, por exemplo, pagou 2 mil reais para prensar mil cópias da mixtape deles. E é uma dupla onde cada um ganha perto de um salário mínimo por mês. Mas por um deslize de marketing e por pressa, não trabalharam em cima da mixtape. No final das contas, eles ficaram com todas as mixtapes presas sem conseguir vender.

Fora isso tem a realidade pessoal de cada artista. Muitas já trazem histórias difíceis da infância, da adolescência e esse cenário musical agrava muito.

Outra coisa é que os artistas sempre são lidos como personagens. A gente se identifica com aquilo que eles nos mostram, mas não com quem eles são de verdade. Não sabemos como é a vida de cada um deles, e isso gera uma sensação de isolamento gigante. Porque o público quer consumir a cultura como produtos, de uma forma mais objetiva que subjetiva. E os artistas percebem isso.

Tem toda a parte da ilusão também. Muitos artistas iniciantes acham que vão já chegar estourando com vários hits no rádio, bater um milhão de views no YouTube. E quando a ficha cai, de que é algo muito mais difícil e trabalhoso, é difícil.

Será que alguma coisa pode ser feita no ramo para amenizar essa situação?

Olha, até cheguei a fazer um vídeo ano passado falando dos casos do Kid Cudi (que se internou em uma clínica pra tratar de depressão) e do Kanye West (que foi internado por ter tido um surto psicótico por falta de sono e alimentação adequada). Eu vejo algumas coisas que podem ajudar. Primeiro é trabalhar a carreira musical de forma mais concreta e menos fantasiosa para evitar muitas decepções que a galera vai tendo ao longo do caminho. Outra coisa é respeitar os próprios limites: criar prazos, tarefas e metas que respeitem os limites físicos e psicológicos do artista. Uma coisa que ajuda muito (mas é mais fácil falar que fazer) é separar vida profissional de vida pessoal: a galera nem sempre vai curtir seu trampo, mas entender que as críticas são direcionadas ao personagem interpretado pelo artista, e não ao artista como pessoa, é super importante. Também acho legal, na medida do possível, ter alguém para falar sobre essas coisas: seja um psicólogo, um produtor, um amigo, um parceiro amoroso – tentar encontrar alguém que realmente acredita no artista e esteja do lado dele, encorajando.

Outra coisa que rola muito é a galera se comparar com a concorrência, é isso é importante para o planejamento de marketing, mas não olhar só para isso é saber que cada pessoa e cada artista tem um potencial único é algo que aumenta a confiança do artista em si mesmo e evita comparações que tragam sofrimento.

Também seria legal uma mudança de perspectiva do público, mas isso é algo bem mais difícil de alcançar. Ao invés de críticas vazias, buscar críticas construtivas seria legal. E ter compreensão: entender que atrás daquele personagem que a gente se identifica e cria uma série de expectativas, existe uma pessoa, um ser humano, que é exatamente como eu.

E aí tem várias outras questões também. Se você é mina, LGBT ou negro, você será muito mais atacado a partir dessas categorias. Mas, ainda no caso do Chester entra todo o preconceito para se falar sobre suicídio. Então são valores morais e sociais colocados em jogo o tempo todo. E os artistas reagem (emocionalmente ) a isso.

Para o tratamento da depressão é necessário o acompanhamento de um psicólogo e psiquiatra. Não podemos ser onipotentes para negar os benefícios que os medicamentos psiquiátricos podem ter, quando usado de maneira correta, com acompanhamento contínuo dos profissionais e em associação com psicoterapia. O suicídio ocorre quando o paciente/cliente possui energia para tal, ou seja, é preciso redobrar atenção com eventuais melhoras na depressão, principalmente nos casos mais graves. Além disso, é necessário um trabalho em conjunto com a rede de apoio (família e amigos) e reinserção de atividades da vida diária.

Descanse em paz, Chester.

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Texto de Juliana S. Farias 

julianaJuliana S. Farias é psicóloga formada pela Universidade Federal de São Paulo (CRP: 06/130659). Pós-graduanda em adolescência e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente, trabalha em uma equoterapia e atendimento clínico. É apaixonada por terapia assistida por animais. Acredita na psicologia como forma de promoção de qualidade de vida para todos.

Contato : jusouzafarias@gmail.com 

Blog : https://psicologajulianasouzafarias.wordpress.com/

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