Por que os alunos estão evadindo das universidades?

Dado a diversas mudanças no panorama do país, hoje se tem um grande número de estudantes universitários, apesar do índice de ingressantes estarem caindo nos últimos anos, conforme os dados do Censo de Educação Superior de 2016. Porém, é preocupante os dados da evasão das universidades: metade das pessoas (49%) que ingressaram em 2010 abandou a universidade até o quarto ano em 2014. O problema pode ir muito além de falta de verba e não identificação com o curso. Quando se fala em faculdade, muitos dizem “será o melhor ano de suas vidas”, mas ao conversar com alguns alunos, de instituições públicas e privadas, vemos que o contexto pode ser bastante adoecedor.

Os problemas mudam de acordo com cada instituição e cada curso, mas existem muitos pontos em comum. Um deles é a sobrecarga de estudo, que se torna mais evidente nos momentos dos fechamentos de semestres. Com os prazos finais, provas e trabalhos se acumulam, por mais organizado que o estudante seja. Como consequência, o conteúdo não é absorvido, estresse, saúde comprometida e a somatória de tudo isso pode se refletir no desempenho acadêmico.

O estresse, um fator em comum em muitos estudantes, é preocupante. Segundo Marilda Lipp, o estresse é essencial para a nossa sobrevivência, nos propulsiona para nossas atividades cotidianas. Quando positivo, é a “fase do alerta”. Na “fase da resistência”, a pessoa procura lidar com seus problemas e manter a homeostase. Quando os fatores estressantes são mais intensos ou persistem, a pessoa passa para uma “fase quase-exaustão”, em que começa um processo de adoecimento e deterioração. Por fim, na “fase de exaustão” há a possibilidade de doenças graves em órgãos vulneráveis (como o enfarte e úlceras). De uma fase para a outra, é possível aliviar o estresse através de estratégias de enfrentamento ou remover aquilo que o desencadeia.

Felipe Moretti estudou 102 universitários, e apenas um dos pesquisados não tinha nenhuma forma de estresse, que em grande parte vinha da própria rotina do curso. “O conhecimento é muitas vezes entendido como várias caixas fechadas, mas ele é mais amplo que isso, e os alunos se desmotivam com coisas assim”, explica o psicólogo, para o Jornal da USP, ao elucidar a questão do ensino como um produto, tornando o estudo maçante.

Conversei com alguns alunos, de diversas universidades, para levantar questões acerca de suas formações. A fala de Caio Possati Campos – que também é psicólogo, estudante de jornalismo e escritor da página Na Cara no Gol –  vai de encontro com a explicação de Moretti, e problematiza a questão da pesquisa na universidade: “Eu não gostava muito do tipo de fucionamento acadêmico no estilo “nós para e por nós mesmos”. Achava que muitos se dividiam em grupos e em fragmentos que se fechavam ali. E nisso, sacrificava uma ciência direcionada para a comunidade, sociedade, ou para o público fora das universidades, sem o retorno devido àqueles que investem em nós. Sei que demora e existe um rigor para que uma ciência passe a ser aplicada para fora dos laboratórios, mas não me parecia ser a principal proposta de alguns.

Outra coisa era o glamour que isso gerava e a necessidade de pessoas se portarem como se as respectivas pesquisas fossem a última bolacha do pacote da ciência. E junto disso, estudantes querendo atenção e reconhecimento a qualquer custo – incluindo principalmente a prática bajulação – de professores só para entrar em um grupo seleto de pessoas que, como eu disse, só sabem funcionar numa dinâmica para dentro e não para fora.

E por fim, você se submeter a um universo que ignora por completo seu bem estar e que te transforma em uma máquina de produção para publicar artigos a nível acelerado é o que menos me agrada. Não estou dizendo que todas as ciências em todas as universidades funcionam assim, mas pelos relatos me parece que este ambiente não fomenta trocas, mas sim competições. E isso eu acho perigoso.”

Outros pontos que os estudantes levantaram:

– professores altamente abusivos, que abusam de sua própria autoridade;

– professores sem didática, que só leem slides;

– a falta de empatia de toda a comunidade acadêmica, e consequentemente, solidão;

– excesso de conteúdo, de provas, trabalhos e atividades para fazer;

– a prova como único método de avaliação;

– conciliar trabalho com a vida acadêmica, o que muitas vezes implica na desistência da universidade, pois os horários não são compatíveis ou algumas figuras não são compreensivas, como por exemplo, estudante que leva falta por sair cinco minutos mais cedo para trabalhar;

– projeto pedagógico mal estruturado;

– falta de responsabilidade dos colegas, o que acaba sobrecarregando os colegas, principalmente nos trabalhos em grupo;

– racismo, homofobia e machismo no ambiente universitário, inclusive feito por professores;

– dificuldade em conseguir estágio ou emprego e falta de preparo dos universitários para o mercado de trabalho propriamente dito; além de alguns terem relatado não conseguir estágio devido a idade (ser mais velho);

– amizades superficiais. Citado como um fator recorrente dos alunos matriculados em sistema quadrimestral, pois não há uma turma fixa;

– matrícula que exige pré-requisitos, como coeficiente de rendimento alto;

– desorganização institucional, o que inclui serviços, como a secretária, que não funcionam em no período noturno;

– distância da universidade e transportes públicos ineficientes;

– insegurança e insalubridade, no caso de campus localizado em lugares ruins;

– preço das universidades e dos materiais, reajustes e

– atraso das bolsas, falta de restaurante universitário, creche e greves, no caso das universidades públicas.

Além de todos os problemas elucidados, há a dificuldade em conciliar a universidade com alimentação saudável, atividade física, horas suficientes de sono e vida social. Há muitos estudantes que saem de casa para estudar, e passam a morar sozinhos ou em repúblicas, tendo que lidar com serviço doméstico, os problemas de conviver com outras pessoas e a saudade de casa, já que muitos mudam para muito longe de suas famílias. Dependendo da cidade, como a própria São Paulo, os aluguéis também são caríssimos. Devido a essa mudança, muitos estudantes relataram ter engordado mais de dez quilos durante a graduação, e ter comido muito mal, o que afeta diretamente a saúde.

Diante desse contexto, Moretti sugere que é preciso a busca por novos meios de ensino, além do entendimento da realidade dos alunos e o oferecimento de atividades extracurriculares por parte da instituição.

É importante que a comunidade acadêmica crie uma rede de apoio, seja fazendo rodas de conversa ou propondo atividades, como dança, meditação e atividades físicas. Unindo forças é possível que algumas mudanças institucionais ocorram. Tomo como exemplo uma situação em que ocorreu onde eu estudava: a universidade estava localizada em um lugar muito perigoso, e com a união dos alunos, foram tomadas providências físicas para garantir a segurança no trajeto.

E como sempre aperto nessa tecla, a busca de ajuda profissional em casos de dificuldades em lidar com os problemas ou situações, crises, angústia, desmotivação, estresse, ansiedade, tristeza profunda, solidão, transições e autoconhecimento. Há diversas instituições que oferecem terapia gratuita e a baixo custo. Estar em uma universidade é um processo de construção e reconstrução, e não é necessário passar por tudo isso sozinho.

Marilda Novaes Lipp e Lucia Novaes Malagris, O Stress Emocional e seu Tratamento.In Bernard Range (Org) . São Paulo: Artes Medicas. 2001

A pesquisa de Moretti fez parte de seu trabalho de conclusão de curso (TCC) do título de especialização em Terapia Comportamental no HU, com orientação de Maria Martha Hübner, professora do Instituto de Psicologia (IP) da USP.

Mais informações: e-mail felipe.moretti82@gmail.com com Felipe Moretti

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Texto de Juliana S. Farias 

julianaJuliana S. Farias é psicóloga formada pela Universidade Federal de São Paulo (CRP: 06/130659). Pós-graduanda em adolescência e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente, trabalha em uma equoterapia e atendimento clínico. É apaixonada por terapia assistida por animais. Acredita na psicologia como forma de promoção de qualidade de vida para todos.

Contato : jusouzafarias@gmail.com 

Blog : https://psicologajulianasouzafarias.wordpress.com/

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