O que torna uma pessoa/casal apto a adotar uma criança?

O direito a adoção é concedido a partir da análise de diversos fatores, avaliados por equipe multidisciplinar. Aqui, nos interessa discutir os motivos pelos quais psicólogos indicam se o solicitante a adoção se mostra apto ou não para tornar-se pai ou mãe. Mas, afinal o que torna alguém apto a adoção? Pretendemos contribuir para a compreensão dessa questão a partir do referencial psicanalítico.

Em variados ambientes ouvi diversas pessoas relacionarem a adoção a um ato de benemerência; a uma maneira de diminuir a solidão ou ainda um bom recurso para restaurar um casal que não pode gerar filhos biológicos ou geraram e perderam, entre outras justificativas. Diante de motivos “tão nobres” ou “legítimos” muitos que pensam dessa forma não compreendem porque a Justiça nega-lhes a adoção de crianças ou adolescentes, geralmente pobres, carentes de afeto ou que sofrem mal tratos.

Hamad (2002, p. 15) chama a atenção para a necessidade de elaborar o luto do filho biológico que não veio (ou se foi) para abrir espaço interno (na pisque, no campo do desejo) para um filho (outro filho) que virá por meio da adoção. Nas palavras desse autor: “[…] uma perda reconhecida como fazendo parte da castração do sujeito e implicando consequências que o põem à altura de assumir sua falta em ser.”  Contudo, diversas pessoas mostram dificuldade para entrar em contato com seu fracasso nessa questão, de modo profundo o suficiente, para elaborar tal perda. Ao contrário, buscam – geralmente inconscientemente – no filho adotivo a maneira de esconder de si mesmo as mazelas afetivas que se aproximar dessa falta e do fracasso de sua onipotência podem causar.

É exatamente o candidato descrito acima que enfrentará significativa dificuldade para ser habilitado à adoção. Afinal, para se estabelecer a parentalidade faz-se necessário elaborar o luto de todas as perdas que os levaram a recorrer a adoção. O sujeito que se propõe a adotar um filho precisa, antes de tudo, cuidar de sua ferida narcísica. O filho que chegará precisa encontrar seu lugar, ao invés de ocupar o lugar de um outro. Deste modo, concordamos com Françoise Dolto ao dizer que todo filho precisa ser adotado, independentemente de ser adotivo ou biológico.

Portanto, elaborar o luto abre espaço para uma parentalidade saudável e habilita psíquica e emocionalmente a ser um pai ou mãe, efetivamente. Além disso, esses pais oferecerão condições para o filho construir sua identidade livre da carga de responder a algo que não lhe diz respeito: o espaço de um outro que não pode ocupa-lo. Esse cenário facilitará a habilitação legal, pelo menos no que diz respeito aos aspectos psicoemocionais. A gestação psíquica, a parentalidade é condição determinante para obter-se êxito na adoção legal.

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nv Anna Silvia Rosal de Rosal é psicóloga clínica e intercultural; doutoranda com mestrado em Psicologia Clínica pela PUC SP; especialista em Psicoterapia Psicanalítica pela USP; docente do ensino superior; pesquisadora com trabalhos apresentados em congressos; livros e artigos publicados; experiência nas áreas clínica, recursos humanos e hospitalar.

Autora do livro Vida de Expatriado: carreira e subjetividade do executivo solteiro pelo olhar da psicologia. Zagodoni editora.

Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4233807D8

1 Comments

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  1. Gostei!

    Anderson Flávio / Responder

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