O que é equoterapia?

Entre as terapias que utilizam os animais, a equoterapia é uma das mais famosas. Porém, muita gente não entende como “funciona”. Não, não é só colocar uma pessoa em cima do cavalo e sair andando por aí!

A fisioterapia é uma das áreas que mais se beneficiam da equoterapia, pois proporciona melhora física em diversas condições, congênita ou adquirida, através da neuroplasticidade cerebral. Ou seja, o cérebro vai procurar novos caminhos para assumir a função de uma parte perdida, como no caso de uma pessoa que deixa de andar por conta de um acidente de carro ou que nunca andou na vida por ter nascido com paralisia cerebral. E onde entra o cavalo nisso? O passo do cavalo é muito semelhante ao passo do ser humano e passa o estímulo de estar andando. O movimento é tridimensional: move-se para as laterais, cima-baixo e frente-trás. Também há estímulo e melhora do tônus muscular, coordenação motora, sistemas vestibulares (equilíbrio), proprioceptivos e exteroceptivas (como tato, temperatura e pressão).

Mas o que isso tem a ver com psicologia? Calma que eu chego lá. A equoterapia também possui benefícios nos âmbitos psicológicos, educacionais e sociais na medida em que promove relaxamento, equilíbrio, sensação de bem-estar, externalização de afetos, aperfeiçoamento das funções executivas (atenção, planejamento, decisão), melhora da autoestima, confiança, estimulação da linguagem e áreas sensório-motoras. Sem contar todos os benefícios físicos:

E quem se beneficia disso? Quase qualquer um pode se beneficiar, pois aprender algo novo estimula o cérebro como um todo. Por que quase? Há condições físicas que limitam, precisando de um cuidado maior. Mas no caso da psicologia, é comum receber casos de Transtorno do Espectro Autista, asperger, depressão, transtornos de ansiedade, questões afetivas e sociais, dificuldades de aprendizagem, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, Transtorno Opositivo Desafiador e entre outros.

Além disso, para aqueles que possuem uma deficiência ou um diagnóstico psicológico, os familiares tendem a enxergá-lo como um sujeito passivo, com capacidades limitadas de acordo com seus referenciais de “normalidade” e entram com a questão do luto do filho ideal. Montar no cavalo, e em alguns casos, conduzi-lo, amplia suas possibilidades e o coloca como um sujeito ativo em suas escolhas. Dada essa visão, o paciente passa-se a ser chamado de “praticante”.

Há pesquisas que demonstram que o cavalo pode ser utilizado como objeto transicional, baseado dentro da teoria Winnicottiana. O cavalo tem diversas características como textura (a maciez de seu pêlo) e calor que se referem ao primeiro objeto relacional de um ser humano: o seio, dando-se na ordem do imaginário. A Equoterapia em si mesma é lúdica, ajudando a criança a desenvolver-se através do brincar, via elaborações. Terapeuta e cavalo podem proporcionar o holding, a maternagem, fortalecimento do self e integração de si.

Qualquer cavalo serve? Não! O nosso setting é a pista de equoterapia e as atividades realizadas em baia, que algumas equoterapias fornecem. Há uma riqueza de um universo a ser explorado: alimentação, escovação, banho, conhecimento dos materiais de equitação. Os cavalos selecionados devem ter porte para tal atividade, sendo simétricos para proporcionar o estímulo correto, pois é preciso condições de saúde e de postura e passada de cada animal. Alguns andam mais devagar e oferecem menos estímulo, outros terão uma passada mais rápida e fornecerão mais estímulos, o que muda a indicação para cada demanda de praticante.  O cavalo/égua precisa ter um temperamento adequado, que seja um animal manso e treinado.

Como já bati bastante nessa tecla na nossa série de Terapias Assistidas por Animais: o terapeuta deve ter um conhecimento abrangente sobre o cavalo, a prática da equoterapia e as bases teóricas específicas de sua área. É importante frisar esse aspecto porque animais são animais, e precisamos contar sempre com a imprevisibilidade e prezar pela segurança por quem demanda de tratamento. Com o cavalo, a segurança é muito importante, pois é um animal “assustado” por natureza, já que ocupa o papel de presa na vida selvagem, ou seja, tende a fugir em qualquer situação que considere que ameace sua vida (daí a importância dos treinos). Além disso, é um animal de grande porte, pesando por volta de 500kg: queda da montaria, coice ou um pisadela podem gerar acidentes graves.

 Nós, seres humanos, devemos ter a ética de respeitar as condições de qualquer animal utilizado em terapia. Primeiramente, ele não escolheu trabalhar e não conseguirá dizer em palavras “estou incomodado”, por isso precisamos saber ler suas expressões e comunicações corporais. No caso dos equinos, é preciso saber suas limitações de peso para montaria, seus medos (cavalos são presas!) e o manejo do animal e do praticante em caso de algum imprevisto. Em dias de jogo de futebol pode ter fogos no meio do atendimento e o cavalo se assusta. Além disso, é essencial proporcionar um ambiente o mais próximo possível de sua natureza, fornecendo-lhe qualidade de vida, ou seja, o animal precisa ter espaço para galopar, brincar, pastar, tomar sol, estar com outros de sua espécie, descansar e ser só um cavalo.

As terapias por animais é um universo riquíssimo, fantástico e apaixonante. É muito gratificante observar crianças que, antes com medo do animal, seja cachorro ou cavalo, entregam-se ao amor incondicional e sem julgamento que os animais oferecem.

 

“Se quiser aprender a amar, comece com os animais … eles são mais sensíveis.” (Gurdjieff)

 

julianaJuliana S. Farias é psicóloga formada pela Universidade Federal de São Paulo (CRP: 06/130659). Pós-graduanda em adolescência e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente, trabalha em uma equoterapia e atendimento clínico. É apaixonada por terapia assistida por animais. Acredita na psicologia como forma de promoção de qualidade de vida para todos.

 

 

 

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  1. […] – Equoterapia […]

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