O que a Netflix acertou e errou em Atypical

A Netflix (netflix é menina!) possui várias séries originais, e uma delas é a Atypical. O protagonista é um garoto de 18 anos, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) de alta funcionalidade. Atypical é uma série leve, que convida o espectador a rir, chorar e se surpreender. A trama gira em torno de problemas típicos da adolescência, como namoro, amigos e preocupação com futuro, com o diferencial de ter um personagem com uma condição neurobiológica. A série possui vários pontos positivos e um ponto muito negativo. O texto contém spoilers sobre a série, depois não diga que eu não avisei!

Primeiramente, vou enfatizar o quão legal é ter uma série sobre TEA no maior serviço de streaming de séries e filmes! A ideia que se tem sobre os autistas – tanto para o público leigo quanto para os profissionais! – é uma criança que não fala, não olha nos olhos e que fica se sacudindo para frente e para trás. Sam, o protagonista, foge do estereótipo: conversa, olha nos olhos, vai à escola, anda sozinho pela rua, desenha, lê, escreve, trabalha em uma loja de eletrônicos, faz suas atividades de vida diária, etc. Ou seja, possui uma independência, que não é possível para todos que estão dentro do espectro do autismo. Então, ele não seria um Asperger? Não, porque essa denominação caiu em desuso, de acordo com o DSM-V. A palavra espectro abre uma gama de condições, entre elas, o autista de alta funcionalidade.

O objetivo de Sam é arranjar uma namorada. Logo no começo, ele consegue sair com uma menina. Logo, eu pensei que já ia virar novela das nove e cair em coisas que fogem da realidade. Pois, eu me enganei! A menina faz um carinho leve em Sam, o que o incomoda a ponto de jogá-la no chão, terminando em uma noite desastrosa. Uma das características do TEA são as questões sensoriais: o tato, cheiros, gostos, texturas, luminosidade e barulho são percebidos de formas diferentes em relação a pessoas neurotípicas. Os TEA podem viver nos extremos: podem gostar de contato muito intenso  – que é o caso do Sam – ou muito leve.

A série nos permite tentar entender como as pessoas com TEA veem e sentem o mundo. É muito difícil imaginar como é estar em uma festa e não suportar o barulho, que pode até desencadear uma crise de pânico. Sam não gosta de ir ao shopping justamente por conta das luzes e do barulho; na escola usa fones de ouvido antirruídos; ao sentar-se no banco do ônibus, não toca suas costas no encosto do banco porque o incomoda; só veste roupas cem por centro algodão; só suporta abraços fortes e entre outras situações. Por mais que tentemos nos colocar no lugar deles, ter essas sensações reproduzidas por imagem facilita o entendimento.

Além disso, Atypical é muitas vezes narrada pela perspectiva do próprio Sam. Uma das falas que me chamou muito a atenção foi: “As pessoas pensam que os autistas não têm empatia, mas isso não é verdade. Nem sempre sei se alguém está chateado, mas, quando sei, eu tenho muita empatia. Talvez mais que os neurotípicos.” A grande dificuldade de comunicação de alguns autistas é devida sua dificuldade em ler expressões faciais e corporais, metáforas, piadas e expressões, ou seja, pensamento abstrato, levando muitas coisas ao pé da letra. Sam enfrenta diversos problemas por conta dessa dificuldade, o que não o impede de corrigir seus erros, buscar aprender sobre as pessoas ou saber que estão tirando sarro dele, mesmo que ele não entenda o motivo.

Outro ponto bastante interessante da série é a evidência do outro lado da moeda: os cuidadores. Elsa, sua mãe, é super protetora, sendo a primeira a desaprovar as ideias de Sam em querer arranjar uma namorada ou querer tornar o shopping um lugar mais acessível para o filho. Ela bate de frente com sua psicóloga, Julia, questionando os incentivos da terapeuta para que ele seja mais independente. Com a busca de Sam por mais autonomia, Elsa se vê sem uma função para os filhos, o que dá muito pano para a manga numa discussão sobre a Síndrome do Ninho Vazio. Sua vida gira em torno do diagnóstico do filho, e quando ela vai procurar cuidar mais de si, se vê aliviada com a possibilidade de uma parte de sua vida não estar ligada ao autismo.

Outro ponto lindo da série é que a mãe frequenta um grupo de cuidadores de autistas e o pai, mais para o fim da série, aceita a indicação de terapia da psicóloga de Sam. É muito importante que os pais procurem ajuda. O pai de Sam, Doug, por outro lado, possui muita dificuldade em se relacionar com o filho, o que demonstra a frustração de muitos cuidadores em tentar, tentar e não conseguir algum ponto de comunicação com os autistas. Em um momento, fica evidente que Doug esconde o diagnóstico do filho de seu melhor amigo, o que gera problemas com a esposa.

Nenhum pai ou mãe espera que seu filho possua uma condição, seja ela física ou neurológica. O TEA, geralmente, demora para ser diagnosticado. Em geral, as pessoas desconfiam de autismo quando a criança atinge seus dois anos e não fala. É um processo que faz sentir medo, angústia, tristeza, raiva, impotência, desgaste e uma série de outros sentimentos, que precisam ser trabalhados em algum momento. Existe um ser humano dentro de todo cuidador. Também há um movimento dentro de grupos de pais de autistas em desmerecer a dificuldade dos autistas de alta funcionalidade, devido à “facilidade” do cuidado em relação a autistas mais graves. Pensar dessa maneira é restringir espaços de abertura para discutir as dificuldades.

Nesse grupo de apoio, uma mãe evidencia a grande alegria que foi sua filha, de quinze anos, falar algumas palavras. Dessa maneira, a série deixa claro que, apesar de haver pessoas com TEA de alta funcionalidade, existem pessoas dentro do espectro que possuem outras mil dificuldades. Há casos de TEA em que as pessoas não falam; com outras comorbidade – como, por exemplo, a hiperatividade; são agressivas; e, alguns precisam ser institucionalizados. É importante que as pessoas sejam realistas e não se iludam sobre o TEA, não são todos poderão ter a autonomia e as possibilidades de Sam. Cada caso é um caso.

Ainda na família, Sam é irmão mais velho. Casey, também adolescente, o ajuda dentro da escola e em outros ambientes. Em alguns momentos, a série mostra a dificuldade de se conviver com uma pessoa com TEA. Seus pais perdem grandes conquistas de Casey devido ao cuidado com Sam. Seu namorado se revolta em um jantar, dizendo que é preciso que Doug e Elsa se lembrem de que possuem dois filhos, o que faz com que os pais passem a dar mais atenção a Casey. Ela é uma pessoa bastante compreensiva, que se preocupa muito com o irmão, mas não a impede de tratá-lo diversas vezes como uma irmã trataria qualquer irmão.

No trabalho, Sam convive com Zahid, que também é adolescente. Ele é um personagem bastante divertido, e que me remeteu muito o filme Intocáveis. Por quê? Porque Zahid trata Sam como uma pessoa normal, não coloca sua condição em evidência. Ele fala bobagem como garotos adolescentes falam, o ajuda com garotas e, moralismos a parte, até o leva numa casa de strip tease. Às vezes, as pessoas que possuem alguma condição, seja física ou mental, só precisam ser tratados como todos os outros.

Agora, o grande ponto negativo. Aliás, grande ponto negativo na maioria dos personagens que representam psicólogos em outras séries. Julia é sua psicoterapeuta. Ao longo da série, ela faz sessões bastante fidedignas com o papel da psicologia. Até que Sam declara seu amor a ela, e na maior naturalidade, comenta que invadiu sua casa procurando por ela, para presenteá-la com uma caixa de morangos. Nesse momento, Julia está passando por momentos difíceis, como uma gravidez não planejada e um término de namoro recente (o morango cai embaixo do sofá, o que deixa Julia paranoica que seu namorado estava lhe traindo). Quando Sam se declara, ela explode em raiva, gritando com ele, dizendo que ela não namoraria o paciente adolescente. Acho importante que a série frise que psicólogos possuem uma vida além do trabalho, dificuldades éticas e tudo o mais. Porém, Julia poderia não ter perdido o controle e ser a responsável por desencadear um ataque de pânico em Sam. Por quê, Netflix? Já não bastou a psicóloga doente em Gypsy? Acredito que esse tipo de imagem para a psicologia é um grande desserviço, que desencoraja as pessoas de procurarem ajuda!

Tirando esse único ponto sobre a psicóloga, a série é incrível. Atypical é bastante realista, frisando que TEA é uma condição neurobiológica, não possui cura e são necessário diversas terapias. Pude entender mais o lado de algumas pessoas com TEA que eu atendo. É uma série obrigatória para psicólogos, fisioterapeutas, neurologistas, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, acompanhantes terapêuticos e toda a equipe multidisciplinar, que busca promover saúde, autonomia e qualidade nas pessoas portadoras de TEA.

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Texto de Juliana S. Farias 

julianaJuliana S. Farias é psicóloga formada pela Universidade Federal de São Paulo (CRP: 06/130659). Pós-graduanda em adolescência e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente, trabalha em uma equoterapia e atendimento clínico. É apaixonada por terapia assistida por animais. Acredita na psicologia como forma de promoção de qualidade de vida para todos.

Contato : jusouzafarias@gmail.com 

Blog : Psicóloga Juliana Souza Farias 

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