O modo de ser e estar ao mundo se alterou com a internet?

É muito difícil encontrar uma pessoa que não use as redes sociais, seja para fins pessoais ou profissionais. Desde a época do Orkut, o Brasil fica em um dos países que mais usa esse tipo de ferramenta. Será que há alguma diferença de ser e estar no mundo através da internet e das redes sociais?

Ficar conectado infindáveis horas por dia pode ser bastante prejudicial. Além de todos os problemas de visão, postura e afins, há o aspecto psicossocial. O ser humano, por natureza, compara-se aos outros. Vivemos nessa lógica torturante de que a grama do vizinho é sempre mais verde. As redes sociais acentuam essa comparação, pois trás a impressão que todos vivem uma vida plenamente feliz: amigos, família, passeios, conquistas no trabalho e estudos, viagens… Tudo é perfeito!

A vida cotidiana está o tempo todo sendo registrada em fotos. Perde-se, muitas vezes, o limite do bom senso, invadindo a privacidade que se limitava aos quartos e até aos banheiros. Esse registro está atrelado a uma constante busca por aprovação alheia, por quantidades de curtidas, visualizações e aprovações. A maioria das redes possuem mecanismos de curtir, o que acaba funcionando como um reforço positivo para que se poste mais. Partindo da lógica da análise do comportamento, as redes sociais são uma verdadeira caixa de Skinner.

Também se vive a falta de limite. A internet é um palco que deu voz para muita gente: para as minorias, para ativistas e também para quem só quer “trollar”, perpetuando discursos de ódio. Estar por trás de uma tela faz com que algumas pessoas sintam-se intocáveis e se autorizam a fazer e escrever o que bem entende. Dessa maneira, tudo que se coloca na internet é passível de muitas “curtidas”, ou, o contrário, um brutal julgamento, que tem o poder de mudar uma vida em questão de horas. Ou também retirá-la: há pessoas que se suicidaram devido a veiculação de uma foto particular ou uma notícia, seja ela verídica ou não.

Outro grande perigo da internet é que as pessoas, geralmente, possuem contato em sua rede social pessoas que são muito semelhantes: compartilham ideologias, possuem a mesma classe social e veiculam as mesmas notícias. Na época que as discussões políticas estavam mais acirradas, era comum ver ameaças de exclusão da rede de amigos caso apoiasse tal ideia ou tal político. Além disso, a internet é calculada para lhe mostrar aquilo que você quer ver também. Exemplo bobo é procurar um produto e depois ele ficar lhe mostrando anúncios em outras páginas. Portanto, há a falsa ideia de que o mundo todo pensa assim, o contato com uma diferente inexiste e fica-se preso em uma bolha de concordância.

Estar conectado também é ter uma percepção diferente do tempo, mudou-se a ideia do que é rápido e devagar. Há um grande fluxo de notícias, fazendo com que as pessoas consumam muitas informações, mas sem se prender e se aprofundar a nenhuma delas. Isso pode refletir ao nosso modo de se relacionar com as pessoas e o mundo. É o que Bauman diz sobre viver em tempo líquido, de laços frágeis, relações sem comprometimentos e descartáveis.

Não sou a favor de discursos que se pautam nos malefícios da internet, atrelando a ela diversos problemas que nos rodeiam. A internet é uma ferramenta, e como tal, o uso vai depender do gosto do freguês. Pode se diminuir distâncias, ler um livro, aprender uma nova língua, uma infinidade de coisas! Ademais,  há muitas pessoas que estão trazendo diversas desconstruções à tona, “saindo das sombras” e empoderando via redes sociais: é o caso de grupos que falam sobre questões feministas, ativismo político, LGTB, negros, transições capilares, contracepção sem hormônios, artesãos, e vários outros.

Estão surgindo novas maneiras de relação – com o mundo e as pessoas. Algumas coisas, do que mudou, do que ficou, de que modo se deu, etc, só o tempo irá nos dizer. Porém, é necessário se repensar algumas práticas, sejam elas psicológicas, pedagógicas, educacionais, parentais, enfim, a infinidade que perpassa pelo universo de ser humano. É um grande desafio, pois, ao mesmo tempo em que percebemos algo diferente, também permeia nossas vidas, de maneira que dificilmente se tem uma visão imparcial. É fácil cair na nostalgia que “na minha época era tão melhor…”. Não se trata de melhor, nem pior, somente diferente.

Diante do feed de notícias cheio de viagens internacionais, pratos deliciosos, namoros perfeitos e blogueira de vida perfeita, parecem que só sua vida está de ponta cabeça. Quando verdade “todo mundo vive uma batalha diária da qual você não sabe nada a respeito (…)”. Lembre-se que imagens são facilmente manipuladas e uma foto ou um post é só um recorte de uma realidade. A vida online pode lhe trazer seus amigos e família para perto, conhecer gente nova divulgar seu trabalho ou te dar um conhecimento novo. Porém, cultivar a vida off-line é tão importante quanto. Convide alguém para um café, jogar cartas em uma mesa de alumínio numa tarde de sábado, conversar olho no olho, quebrar um pouco desse estar junto com 500 pessoas e ao mesmo tempo solitário. Permita-se estar também um pouco sozinho. É na solitude (que é diferente de solidão!), que entramos em contato com nosso âmago.

 

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Texto de Juliana S. Farias 

julianaJuliana S. Farias é psicóloga formada pela Universidade Federal de São Paulo (CRP: 06/130659). Pós-graduanda em adolescência e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente, trabalha em uma equoterapia e atendimento clínico. É apaixonada por terapia assistida por animais. Acredita na psicologia como forma de promoção de qualidade de vida para todos.

Contato : jusouzafarias@gmail.com 

Blog : Psicóloga Juliana Souza Farias 

 

 

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