No Pain, No Gain

Acordar às quatro da manhã, atravessar a cidade, trabalhar horas a finco, ficar sem almoçar direito, ir para os estudos à noite… Finalmente, chegar em casa pra lá madrugada a dentro, e desmaiar. Dormir não, desmaiar. E todos elogiam “ele é trabalhador”. É como dizem: “No pain, no gain”.

Frases como a “sem dor, sem ganho”, “Vitória sem luta é triunfo sem glória”, “enquanto você dorme, tem alguém estudando” e afins são alguns dos reflexos de uma sociedade que vangloria o trabalhar pesado. Quem pensou nessas ideias malucas não leu estudos científicos que comprovam que não dormir é não absorver conteúdo aprendido, que trabalhar demais faz mal a saúde e tantas outras complicações. Se for para repetir um ditado, que sigamos com o velho “tudo que é demais, faz mal”.

Muita gente não tem opção senão seguir uma vida dura. O grande problema é que foi internalizado que para uma conquista valer a pena, é preciso ter suado muito. Vangloriamos quando uma pessoa abdicou de toda sua vida e conseguiu passar no curso almejado na universidade; ou o/a chefe de família que trabalhou tanto que nem consegue passar o tempo com o filho, mas conseguiu atingir sua meta na empresa.

Não tem corpo e sanidade que aguente essa vida por muito tempo. O corpo irá te dar alguns sinais, mesmo que seja em forma de somatização física como gastrite, enxaqueca ou até algo mais grave. A Síndrome de Burnout nada mais é do que o esgotamento físico e mental diante de um estresse profissional intenso.

É claro que se ficar deitado no sofá não se chega a lugar nenhum. Nenhuma novidade aqui. A questão não é essa. O problema é um discurso recheado de meritocracia, de que se você ainda não chegou lá é porque não se esforçou o suficiente. Sempre tem algo a mais a se alcançar. Você nunca é suficiente como é. Onde você chegou nunca é o bastante. Sempre podia estar fazendo mais. E nisso é despendida toda a energia porque há um imenso sentimento de culpa. Culpa de “eu deveria estar…” a todo momento, inclusive de domingo a noite, quando era para estar largado no sofá de pijamas.

Outro reflexo disso é que quando queremos puxar assunto, jogamos a pergunta “o que você faz?”. Parece meio ilógico responder outra coisa que não no campo profissional “eu estudo arquitetura” ou “eu sou médico”. Poderíamos responder “ando de skate”, “toco bateria”, “leio livros antes de dormir”, mas a nossa identidade se debruça quase que exclusivamente com papeis ocupacionais. São rótulos carregados de estereótipos,  e que pouco dizem sobre alguém.

O Pequeno Princípe – livro para adultos que se esqueceram da simplicidade da infância – questiona esse modo de ser de maneira simples, porém realista:

 

“Se lhes dou esses detalhes sobre o asteróide B 612 e lhes confio o seu número, é por causa das pessoas grandes. Elas adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, as pessoas grandes jamais se interessam em saber como ele realmente é. Não perguntam nunca: ‘Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas?’ Mas perguntam: ‘Qual é sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?’ Somente assim é que elas julgam conhecê-lo. Se dizemos às pessoas grandes: ‘Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado…’, elas não conseguem, de modo algum, fazer uma ideia da casa. É preciso dizer-lhes: ‘Vi uma casa de seiscentos mil reais.’ Então elas exclamam: ‘Que beleza!’ (…) Elas são assim mesmo. É preciso não lhes querer mal por isso. As crianças devem ser muito tolerantes com as pessoas grandes” “Se lhes dou esses detalhes sobre o asteróide B 612 e lhes confio o seu número, é por causa das pessoas grandes. Elas adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, as pessoas grandes jamais se interessam em saber como ele realmente é. Não perguntam nunca: ‘Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas?’ Mas perguntam: ‘Qual é sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?’ Somente assim é que elas julgam conhecê-lo. Se dizemos às pessoas grandes: ‘Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado…’, elas não conseguem, de modo algum, fazer uma ideia da casa. É preciso dizer-lhes: ‘Vi uma casa de seiscentos mil reais.’ Então elas exclamam: ‘Que beleza!’ (…) Elas são assim mesmo. É preciso não lhes querer mal por isso. As crianças devem ser muito tolerantes com as pessoas grandes”

Se você não tem opção a não ser viver essa vida do hard work, que sua motivação se debruce em que é temporário. Entretanto, não cultue somente quem chega lá porque abriu mão de tudo – inclusive da própria saúde mental. Tenha como parâmetro as pessoas que atingiram seus objetivos e puderam viver também fora do ambiente profissional.  Seja você mesmo seu herói, comemore todas as pequenas conquistas do seu dia. Você não se resume a um profissional, há uma pessoa que vai muito além disso. Nem todo dia vai ser sua colação de grau, um pedido de casamento ou aquela promoção no emprego. Nem precisa, ainda bem. Senão ia perder a graça, né?

Texto de Juliana S. Farias 

julianaJuliana S. Farias é psicóloga formada pela Universidade Federal de São Paulo (CRP: 06/130659). Pós-graduanda em adolescência e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente, trabalha em uma equoterapia e atendimento clínico. É apaixonada por terapia assistida por animais. Acredita na psicologia como forma de promoção de qualidade de vida para todos.

Contato : jusouzafarias@gmail.com 

Blog : Equilibra – Psicologia e Orientação Vocacional

 

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