Não quero ter filhos (e tudo bem).

De uns anos para cá, o movimento tem ganhado cada vez mais adeptos e principalmente adeptas. Tratam-se de pessoas que não querem ter filhos, seja pela via biológica ou adoção. E isso acarreta em muito preconceito pela sociedade.

Alguns olham para isso e pensam: okay, você não quer ter filhos, siga sua vida. Em contrapartida, há uma sociedade que cobra por padrões e julga aqueles que não o seguem. No caso de quem opta por não ter filhos, precisa aguentar discursos como: “você é fria”; “quem vai cuidar de você quando ficar velho?”; “vai se arrepender no futuro”; “por que você não gosta de crianças?” e afins.

Se for parar para pensar de uma maneira muito racional, ninguém teria filho. Pensa bem: ter diversos sintomas de gravidez como enjoo, tontura, pés inchados, e depois ter que fazer uma cirurgia ou expelir um ser humaninho de 3 kilos. Abdicar de seu tempo livre, de suas horas de sono, passar umas madrugadas no pronto socorro, ter que lidar com fraldas sujas, gastar muito com roupa, brinquedo e escola. Depois, a criança cresce, vira adolescente e tem que aguentar tudo o que vem com a adolescência… Além do mais, o mundo está um tanto quanto torto para pensar em colocar uma criança para sofrer tudo isso.

A sociedade nos cobra a vida inteira de seguir um roteiro. Vá para a escola, curse uma universidade, arranje um emprego, namore, case, compre uma casa e um carro, tenha pelo menos dois filhos. E essa cobrança, de maneira direta ou indireta, pode ser muito incômoda e não empática. Outro dia, ouvi uma mulher dizer que não pergunta para mais ninguém esse tipo de coisa porque a vida tinha ensinado a não fazer isso. Uma vez ela perguntou quando vinha nenê a mulher em questão não podia ter filhos, mas queria muito. Imagina o sofrimento dessa pessoa?

Essas pessoas que não querem ter filhos não precisam ser rotuladas dessa maneira. Elas só optaram por um caminho diferente. Os seres humanos são muito singulares e plurais para serem reduzidos a um script. Se o sonho de alguém é dar a volta ao mundo, ser bem sucedido em sua carreira, gostar de ter muito tempo livre, qual é o problema? No fim das contas, se um casal tem um bebê, qual será sua participação nisso? É muito fácil dividir as partes boas da maternidade, mas na hora do perrengue, muitos casais – ou muitas mães – se veem muito sozinhos. Já falei um pouco sobre a questão de a maternidade não ser um mar de rosas.

Além do mais, discursos como “quem vai cuidar de você quando irá ficar velho” e afins é uma falácia. Eu conheço – e você com certeza deve conhecer –  pessoas que possuem filhos, mas que vivem muito sozinhas. Pessoas que, inclusive, moram com os filhos, mas não possuem uma relação dentro da própria casa. E não querer ter filhos nada tem a ver com gostar ou não de crianças. É muito raso colocar todas as crianças em uma categoria só. Crianças possuem personalidades muito distintas. Conheço algumas mulheres que não querem ter filhos por nada nesse mundo e adoram seus sobrinhos e afilhados.

Tem um ponto nessa história toda que é reflexo de uma sociedade machista e patriarcal. Há mulheres que gostariam de fazer cirurgia de retirada de útero ou que promova a esterilidade, mas não pode? Por quê? Porque exigem que se tenha ao menos 25 anos e com ao menos dois filhos. Quando se é casado, é preciso um termo de consentimento do marido autorizando o processo. Se o corpo é da mulher, por que o homem tem que meter o bedelho? “Porque é uma decisão do casal em ter filho ou não.” Concordo, mas quem tem mais mudanças sociais, físicas, biológicas e psicológicas quando tem um filho?

Eu não quis utilizar o termo “Childfree”, que ao pé da letra significa “livre de crianças”. Há algumas pessoas que utilizam o termo para falar sobre a proibição de crianças a alguns lugares e de coisas relacionadas a não se gostar de crianças. Mas isso dá muito pano para a manga e fica para outro texto…

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Texto de Juliana S. Farias 

julianaJuliana S. Farias é psicóloga formada pela Universidade Federal de São Paulo (CRP: 06/130659). Pós-graduanda em adolescência e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente, trabalha em uma equoterapia e atendimento clínico. É apaixonada por terapia assistida por animais. Acredita na psicologia como forma de promoção de qualidade de vida para todos.

Contato : jusouzafarias@gmail.com 

Blog : Equilibra – Psicologia e Orientação Vocacional

2 Comments

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  1. Muito legal o texto, é importante poder discutir esse tema, diminuir essa forma de discrimininação, e até mesmo estimular o processo racional na escolha de ter filhos ou não.

    Só acredito que há um equívoco em relação ao ponto de retirada do útero.

    A exigência de ter +25 anos, dois filhos e autorização do cônjuge também existe para o caso de o homem que quer fazer vasectomia, ou seja, o homem também precisa da autorização da mulher (esposa) para essa decisão. Desse modo, não me parece ser um exemplo de machismo. Mas de qualquer forma, essas restrições são absurdas, tanto para homens quanto para mulheres.

    Parabéns pelo texto e por tocar em um tema tão importante.

    Tiago / Responder
  2. Oi Tiago, tudo bem?
    Muito obrigada pela leitura do texto e pelo comentário!! :)

    Na prática, o que acontece, é que os homens vão lá e fazem. Geralmente, barram os mais novos por uma questão de possibilidade de arrependimento mesmo.

    Sugiro a leitura desse texto: “Opa, pera lá: mas a lei também prevê que homens peçam permissão das esposas para fazer vasectomia.

    Calma, não chegue tão rápido a conclusões. Para começar, segundo Roberto, essa suposta paridade da lei é ilusória. “Os homens fazem mesmo e pronto – e os médicos raramente questionam. A maioria deles nem sabe que esta lei se aplica aos homens”, observa. “Já para as mulheres, a autorização do marido constitui um obstáculo enorme: o acesso ao tratamento de saúde no Brasil já não é fácil, ainda mais quando se coloca mais um empecilho no caminho.” (http://azmina.com.br/2017/04/mulher-deveria-pedir-autorizacao-do-marido-pra-fazer-laqueadura/)

    Juliana / Responder

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