Melhor Idade

Lá estava eu, em mais um dia de estágio do quinto ano de psicologia. Fim de tarde, em um dia gelado do inverno paulista na ala psiquiátrica da Geriatria do Hospital das Clínicas, em que eu estava coordenando uma oficina pautada no texto de Rubem Alves “Envelhecer”, cujas frases iam sendo retiradas de um colete de velcro das costas de um cão golden retriever. As falas dos idosos eram sobre sabedoria, experiências e diversos outros temas do senso comum. Um senhor rompeu o ar de otimismo com “não há nada de bom em ficar velho”, seguindo sua fala mencionando doenças, perdas e invalidez. O grupo de idosos se encolheu, não só de frio, mas por alguém ser portador de uma angústia não dita que permeava todos ali, que os acompanham já há alguns anos.

Um dos idosos que trazia a velhice como algo bom era descendente de japonês e já tinha morado muitos anos na terra do sol nascente. Há coisas ruins e há coisas boas em comparação com o Brasil. Das coisas boas, os idosos são muito respeitados: possuem um feriado nacional dedicado para eles em setembro, respondem orgulhosamente quantas primaveras já viveram, são consultados pelos mais jovens antes de qualquer decisão importante e são tidos como figura de autoridade, sabedoria e respeito.

 O Brasil, ao contrário de países orientais, segue em uma cultura de desvalorização dos mais velhos. Ao pegar o transporte público, os idosos são tidos como um “atraso de vida”, pois ocupam vários lugares e sobem as escadas vagarosamente (na cidade em que moro, Santo André, há degraus enormes e ainda entram pela porta de trás, e muitos motoristas os ignoram, enquanto eles sacodem arduamente os documentos de comprovação de gratuidade no transporte público, e vão embora sem abrir a porta); não conseguem um emprego caso queiram recolocação no mercado de trabalho, e quando chega certa idade, são desligados de suas ocupações, pois idoso fica doente com frequência, faltam mais e time is money, baby.

Já que não restou saúde, trabalho, dinheiro e reconhecimento social, ao menos dá para curtir a aposentadoria viajando e descansando, aproveitar tudo o que sonhou nesses últimos anos. A maior parte dos aposentados vive com um salário mínimo, “male má” paga as contas do fim do mês, quando o convênio não exaure boa parte da renda, pois o sistema único de saúde também não é eficiente. O idoso se vê obrigado continuar a trabalhar – muitas vezes mais horas e em uma ocupação mais cansativa em comparação aquela que exercia antes de se aposentar.

A maioria das pessoas que hoje possuem por volta dos 70 e 80 anos tiveram pelo menos dois filhos, o que significa muitos netos também. Já que não restou saúde, trabalho, dinheiro e reconhecimento social, descanso… nada como a casa cheia aos domingos, rodeada da família, com cheiro de bolo ao forno. Ana Fraiman, mestre em psicologia social pela USP, publicou um texto excelente sobre Pais Órfãos de Filhos Vivos. Apesar dos filhos, em sua maioria, terem ascendido socialmente, não possuem tempo para os pais, quando não os colocam em um asilo. Não raro os cuidados de um idoso recaem em somente um filho – que geralmente é mulher – e os outros aparecem de vez em quando, em algumas datas comemorativas, como quem bate o cartão para não ficar mal falado depois.

O poder público também não oferece muitos serviços para os idosos, com o fim de lazer e reintegração social. Quando oferece, são de difícil acesso, mal divulgados e são atividades um tanto excludentes e estereotipadas: bordado, pintura em pano de prato e afins, que tem um fim nela mesmo, não possui um objetivo. Alguns idosos, principalmente o público feminino, adere a esses serviços.

Além de tudo, nossa sociedade se pauta nas identidades laborais, que são mais valorizadas. Ao conhecer uma pessoa, a primeira pergunta – obviamente, após o nome – “o que você é?”, “o que você faz?”, que remetem as ocupações exercidas. Já dizia o Pequeno Príncipe que os adultos são cansativos, que nunca perguntam o essencial, e com umas poucas respostas “Só então julgam conhecê-lo”. Na aposentadoria essas identidades também são perdidas, fica-se sem rumo: criou filhos, construiu uma vida, foi provedor(a) da família, trabalhou tantos anos… E agora? Muitas vezes, é percebida em uma realidade em que não era esperada, como o cenário exposto anteriormente. Não raramente, muitos idosos ficam reclusos em casa, desenvolvendo demências e depressão, sobrevivendo dia após dia.

É usado o termo “melhor idade” para disfarçar todo esse cenário. Melhor idade para quem? Ainda mais no Brasil, povo preocupado demasiadamente com estética, onde cremes anti-idades, apesar de não funcionarem, já começam ser vendidos a partir dos 25 anos, para combater qualquer sinal de “sabedoria”.

Apesar de o cenário ser bastante pessimista, expor somente os problemas não trás solução. A beleza da orientação profissional e de carreira reside justamente olhar para o aspecto saudável, para as possibilidades da pessoa que nos procura. Ajudá-la a trilhar um caminho que não a leve para a invalidez, para que se perceba além de uma identidade ocupacional – ou mesmo enxergar outras maneiras de exercer sua ocupação, por que não? – com planos, objetivos e sonhos. É preciso se pensar em expandir – para todas as idades – o trabalho de orientação para o público em geral, para que não se torne uma atividade excludente, e que as pessoas das mais variadas rendas e localizações possam ter acesso.

“(…) Eu nasci não-pronto e vim me fazendo. O que nasce pronto é fogão, sapato, geladeira. Esse s sim vão envelhecendo.

Que preto, que índio, que branco, o quê? Somos inclassificáveis!

Sonhos não possuem prazo de validade

Todo mundo quer ser feliz. Felicidade é a harmonia entre liberdade e segurança

Tempo é o bem mais precioso

Quem é rico em sonhos não envelhece nunca

Viver é envelhecer. Nada mais.”

 Rubem Alves

 

Leia mais em:

http://anafraiman.com.br/idosos-orfaos-de-filhos-vivos-os-novos-desvalidos/ 

SELIG, Gabrielle Ana; VALORE, Luciana Albanese. Imagens da aposentadoria no discurso de pré-aposentados: subsídios para a orientação profissional. Cad. psicol. soc. trab.,  São Paulo ,  v. 13, n. 1, p. 73-87,   2010

 

Gostou do texto? Compartilhe nas redes sociais!

Texto de Juliana S. Farias 

julianaJuliana S. Farias é psicóloga formada pela Universidade Federal de São Paulo (CRP: 06/130659). Pós-graduanda em adolescência e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente, trabalha em uma equoterapia e atendimento clínico. É apaixonada por terapia assistida por animais. Acredita na psicologia como forma de promoção de qualidade de vida para todos.

Contato : jusouzafarias@gmail.com 

0 Comments

Join the Conversation →

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *