LEGADO FAMILIAR E TRANSMISSÃO PSÍQUICA

Você acha que algum comportamento, crença ou hábito seu lembra alguém de sua família? E quando dizem que você lembra o modo de ser de um parente que você sequer conheceu? A herança familiar vai além da genética. O texto a seguir busca apresentar esta teoria.

Ao nascer, cada indivíduo traz consigo algo que foi transmitido desde o momento de sua concepção. Ainda na vida intrauterina já há uma comunicação psíquica entre a mãe e o futuro bebê. Aliás, essa comunicação se inicia em gerações anteriores e naturalmente os membros da família vão compartilhando entre si. A mãe desse bebê transmite o que aprendeu com sua mãe, que aprendeu com sua avó e assim por diante. Deste modo, torna-se difícil identificar o ponto de origem. Parte desse legado é refundado pela geração atual que desta forma se atualiza e se fortalece.

A transmissão do legado familiar pode ocorrer por diversas vias. Cada família elegerá, consciente ou inconscientemente, os canais de comunicação para transmitir a herança de uma geração para outra. A partir das primeiras trocas que o bebê estabelece com seus familiares, em especial com seu cuidador a transmissão da herança se intensifica.

No primeiro momento as trocas se dão pelo afeto, pelos cuidados necessários à sobrevivência e ao desenvolvimento de nossa espécie. Ocorre principalmente pela comunicação psíquica entre os membros da família. Tanto o dito como o não dito, a palavra e o silêncio, um gesto e um olhar vão adquirindo significado e estabelecendo parâmetros na relação familiar que se constitui. Esse cenário é o palco da transmissão, é o espaço onde se dá e se recebe a herança.

Posteriormente, as trocas avançam na direção de regras de educação, da autoridade parental, o favorece a socialização do novo membro, a essa altura já uma criança.  Desta forma aprende também o que não deve ser assimilado, pois não é reconhecido como próprio de seu meio, apesar de nele se manifestar.

Ao longo do ciclo vital a herança recebida da família adquire um significado próprio, dado por quem a recebeu. Nesse contexto duas vias se apresentam: 1) aceitar a herança, uma vez que foi significada e, portanto, apropriada; ou, 2) rejeitá-la (parcialmente) em função do legado não fazer eco diante das particularidades de seu herdeiro.

O legado familiar é, portanto, fundamental para a constituição da identidade. O homem não se faz do nada. Precisa de uma matriz psíquica (biológica e cultural também) por meio da qual se faz singular. Sim, a partir da pluralidade a singularidade é construída. A herança familiar, além de contribuir para a formação da personalidade, promove a sensação de segurança necessária para o sujeito arriscar voo solo e se apropriar de sua singularidade.

 

REFERÊNCIAS

Freud, S. (1913). FREUD, Sigmund. Totem e Tabu e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

KAËS, R. et. al. Transmissão da Vida Psíquica Entre Gerações. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.

 

 

nvAnna Silvia Rosal de Rosal é psicóloga clínica e intercultural; doutoranda com mestrado em Psicologia Clínica pela PUC SP; especialista em Psicoterapia Psicanalítica pela USP; docente do ensino superior; pesquisadora com trabalhos apresentados em congressos; livros e artigos publicados; experiência nas áreas clínica, recursos humanos e hospitalar. CRP: 06/50132

Autora do livro Vida de Expatriado: carreira e subjetividade do executivo solteiro pelo olhar da psicologia. Zagodoni editora.

Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4233807D8

 

4 Comments

Join the Conversation →

  1. Muito bom texto Anna. Muito objetivo, importante, pois conceitos esclarecedores sobre os legados familiares, principalmente para aqueles que trabalham com famílias e casais. Vou acompanhar suas publicações. Parabéns!!

    Lecticia Rapôso / Responder
  2. Excelente Texto

    Eduardo Oliveira da Silva / Responder
  3. Adorei o artigo!! Muito interessante!! Parabéns e obrigada pela forma clara e objetiva com que você faz as colocações. Excelente Anna!! Grande abraço, vou acompanhar as colunas sempre!!

    Fabiana Sobreira de Andrade / Responder
  4. Obrigada caríssimos.
    Toda quarta-feira publicarei um texto aqui, acompanhem.
    Abraços.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *