Entendendo a TCC de uma vez por todas

Você já tentou arrancar uma árvore diretamente do chão, sem cavoucar a terra em volta da raiz? Por menor que ela seja, a gente machuca os dedos, mas a árvore não sai do lugar. Assim como as plantas, nós também temos raízes. Só que nossas raízes não têm floema, xilema ou todos aqueles nomes complexos da biologia.

De acordo com a Terapia Cognitiva Comportamental, as nossas raízes são as visões que temos sobre nós, os outros e o mundo. Ela é construída durante toda nossa vida, principalmente durante a infância e a adolescência, por todas as experiências que vivenciamos. Há coisas boas e ruins. Por exemplo, a visão de que “sou burro” ou “o mundo é um lugar ruim” dizem respeito a nossas crenças centrais.

Mas as árvores, assim como nós, não são formadas apenas pelas raízes. Elas também possuem galhos, que são muito fortes, difíceis de quebrar, mas mais acessíveis. Conseguimos olhá-los, tocá-los e, se forem mais frágeis, até arrancá-los. Os galhos seriam nossas regras que impomos a nós mesmos, aos outros e ao mundo. Na TCC, chamamos de crenças intermediárias. Por exemplo: “se eu não for o melhor da turma, eu não sou capaz”.

Por último, mas não menos importante, as árvores são compostas por folhas e flores. Essas caem com facilidade ou podem ser arrancadas sem fazer muito esforço. Estão acessíveis, assim como os nossos pensamentos automáticos ou disfuncionais. É o primeiro campo de trabalho da TCC, perceber esses pensamentos, que podem vir por frases ou imagens em nossa cabeça. Esses pensamentos podem ser reais ou irreais. Se forem irreais, é trabalhado para que se tornem mais funcionais; se forem reais, é pensado em conjunto com a/o terapeuta, o que se pode fazer em relação à determinada situação.

Se você se considera uma pessoa ansiosa, irritadiça, perfeccionista ou quaisquer características que compõe as pessoas, saiba que elas estão diretamente ligadas as raízes e os galhos que compõe sua personalidade – ou as crenças centrais e intermediárias. Por exemplo: um rapaz que não se sente incapaz quando não acerta 100% das questões de uma prova, pode ser que tenha tido um contexto que tenha favorecido essas suas bases. Seus pais podem ter sido muito exigentes com ele e outras situações que tenham criado essa regra em sua cabeça “se eu não for o melhor da turma, eu não sou capaz”.

As crenças intermediárias e centrais estão em um aspecto mais subconsciente, não temos acesso a isso com muita facilidade. O que temos acesso, num primeiro momento, é aos nossos pensamentos automáticos, que vão causar alguns comportamentos e respostas fisiológicas no corpo. Nesse mesmo exemplo, quando chega à época de provas, esse rapaz fica muito ansioso porque é muito exigente consigo próprio. Por mais que tenha estudado e que seja um bom aluno, têm pensamentos recorrentes de que “vou fracassar”, “não vou conseguir tirar uma boa nota” ou “irei repetir o ano”. Dessa maneira, ele fica ansioso, tendo sintomas como insônia, sudorese e palpitação no coração.

Diante de um pensamento disfuncional, podemos adotar três tipos de comportamento:

– Evitação: como o próprio nome diz, é evitar um comportamento. Se aplicasse no exemplo do garoto ansioso frente às provas, ele evitaria estudar ou até mesmo fazer a prova para não evitar o sofrimento. Uma pessoa que tem fobia social, evita de sair de casa.

– Compensação: é compensar, fazendo demais alguma coisa para mais. Com o exemplo acima, o rapaz estudaria de maneira excessiva, até exagerada, para evitar que fosse mal ao desempenho da prova. Uma pessoa que acha que está acima do peso, pode ter o comportamento de fazer muitos exercícios.

– Manutenção: é ter comportamentos que mantém a situação. Por mais sofrida que seja,  o medo do desconhecido ainda é maior, e relutamos em mudar.  No exemplo acima, o rapaz teria comportamentos de pensar em estratégias, se engajar na psicoterapia ou negar os pensamentos mais funcionais. Voltando a fobia social, a pessoa que evita sair, continua com a regra de que “ninguém gosta de mim”.

O trabalho da TCC é prático, colaborativo, objetivo e focado. Tem uma duração estimada de mais ou menos seis meses, a depender de cada caso. Os resultados possuem comprovação científica e são duradouros. Algumas pessoas a consideram como uma abordagem rasa e superficial, porque trata dos sintomas. Porém, um bom psicólogo irá trabalhar as causas do problema, englobando todos os aspectos que abarcam a vida do indivíduo em sofrimento.

Apesar de a TCC ser descolada de qualquer religião, essa abordagem tem como um de seus preceitos a seguinte frase do Buda: “Nós somos aquilo que nós pensamos. Tudo aquilo que nós fazemos surgir com os nossos pensamentos. Com os nossos pensamentos nós criamos o mundo.” Dessa forma, podemos obter mais paz, equilíbrio, saúde e qualidade de vida. Quem é que não quer isso?

Texto de Juliana S. Farias 

julianaJuliana S. Farias é psicóloga formada pela Universidade Federal de São Paulo (CRP: 06/130659). Pós-graduanda em adolescência e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente, trabalha em uma equoterapia e atendimento clínico. É apaixonada por terapia assistida por animais. Acredita na psicologia como forma de promoção de qualidade de vida para todos.

Contato : jusouzafarias@gmail.com 

Blog : Equilibra – Psicologia e Orientação Vocacional

 

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