E se me procurarem para realizar a cura gay?

Essa semana começou novamente com mais um 7×1 para o povo brasileiro. A justiça determinou que o Conselho Federal de Psicologia não poderá punir ou cassar o CRP dos psicólogos, que realizarem o tratamento para reversão de sexualidade. Participo de alguns grupos de psicólogos no whatsapp e algumas conversas que surgiram foram assustadoras. Esse assunto já foi discutido em textos anteriores, mas é preciso retomar alguns pontos.

Estava discutindo com um psicólogo, que defendia o seguinte: se o paciente/cliente deseja fazer o tratamento de reversão, não há motivos para o profissional não fazê-lo ou não encaminhar para outro psicólogo que o faça.

Vamos lá. Em primeiro lugar, vamos retomar a diferença de alguns termos. . Identidade de gênero é se a pessoa se identifica como homem ou mulher e orientação sexual é ser gay, lésbica, bi, assexual e etc. Uma pessoa pode ter nascido mulher (sexo biológico), se identificar com o gênero masculino (identidade de gênero) e gostar de homens (orientação sexual/afetiva). Ao contrário do que parecem, essas coisas caminham de maneira independente uma da outra.

Em segundo lugar, é cientificamente comprovado de que “cura gay” é ineficaz porque a terapia trabalha aspectos comportamentais, cognitivos, subjetivos e/ou psicológicos. A orientação sexual provavelmente é definida biologicamente. Assim como a cor do seu cabelo, por mais que você pinte de loiro, se ele é castanho, vai continuar nascendo castanho.  Ser hetero ou gay não é uma escolha. Além disso, essa “terapia” pode agravar mais ainda o sofrimento do indivíduo.

Além disso, a justiça fala sobre pessoas que procurem a terapia por livre e espontânea vontade. Mas, na prática, sabemos que isso não irá acontecer. Já existiam muitas pessoas, pelas mais diversas motivações, procurando cura para o “homossexualismo” de seu filhx antes desse limiar da justiça. Essa determinação abre brechas para muitas atuações assustadoras. Se as pessoas desconhecem ou ferem o código de ética de psicologia quando era proibido, o que dirá agora com o aval de uma lei.

Apesar de ter sido nomeado como homossexualismo pelo próprio DSM até a década de 1990, o Conselho Federal de Medicina e a Organização Mundial da Saúde reiteraram de ser uma condição médica ou mental. Ser homossexual não é sinônimo de doença, transtorno, síndrome, distúrbio, perversão e nem nada do tipo. Retrocedemos quase 30 anos na história com a lei aprovada no dia 18/09/2017.

O Brasil lidera número de homicídios de pessoas LGBT no mundo! De acordo com a  ONG Transgender Europe, das 295 mortes de transexuais registradas em 33 países até setembro de 2016, 123 ocorreram no Brasil! A maior parte dessas mortes ocorrem em via pública, ligadas à intolerância e a vulnerabilidade. 36,1% dessas violências ocorreram dentro de casa (dados de 2013 no extinto Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos). Estima-se que uma pessoa LGBT morra a cada 28 horas no Brasil. Tudo isso sem contar com os casos que não são notificados.

O Brasil é um país extremamente pobre. Pobre em muitos sentidos. As pessoas não possuem acesso à informação e muito menos questionam o que leem e escutam por aí. Muitas vezes, o que a mídia expõe ou o que o líder religioso fala, é tomado como verdade absoluta. O Brasil também é um país extremamente religioso (a religião em si não é um problema, mas é comum discursos muito intolerantes). As pessoas precisam dessa segurança em suas vidas. Às vezes, é a única que elas têm dentro de um contexto de vulnerabilidade e desigualdade social. É muito perigoso pensarmos essa lei em vigor pensando só na nossa realidade  – concorde ou não, somos a elite intelectual do país, com diversos privilégios. Se a justiça – os doutores –  trás a ideia que ser gay ou lésbica é estar doente, quem sou eu – pessoa pobre, que não é estudada – para contestar isso? Se o meu líder religioso também fala isso, deve ser verdade!

Esses números só tendem a crescer se nos calarmos. O quão absurdo irá soar “Fulano de tal, psicólogo clínico, especialista em reorientação sexual”! Podemos acolher, questionar, trabalhar com aceitação de sua própria sexualidade e as dificuldades que o público LGTB enfrenta na sociedade. Mas nunca, nunca tentar reverter a sexualidade de alguém.

Referência  :

Royal College of PsychiatristsSubmission to the Church of England’s Listening Exercise on Human Sexuality.

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