Decepção

Esse texto surgiu dos pedidos dos leitores e ouvintes do Psicocast!

Da onde surge a decepção? A decepção nada mais é que do uma expectativa frustrada de algo que não aconteceu. Geralmente vem acompanhado de sentimentos de raiva, tristeza e impotência. Porém, de onde surge essa expectativa?

A expectativa é outro nome que pode ser dado a um sonho, fantasia ou um objetivo. A expectativa na visão freudiana (e olha que minha formação é em Terapia Cognitivo-Comportamental!) pode ser considerado a eterna busca pela satisfação da primeira mamada que saciou o bebê pela primeira vez, por um ideal de ego. Ou seja, as expectativas geralmente não se cumprem da forma que se esperava, porém, a decepção é um tanto quanto importante.

Vamos pensar em uma criança que só tem suas expectativas supridas: quer um brinquedo, os pais compram; quer um doce, os pais dão. Faz-se de tudo para não ver aquela criança chorar e ficar triste. Porém, não vivemos para sempre no doce lar da infância rodeado pelo amor dos adultos. Todo pai e toda mãe não serão ideais, mesmo fazendo o melhor que eles podem. Essa criança vai crescer acreditando que é um tanto onipotente, e que pode alcançar o que quiser, mas o mundo vai lhe mostrar a verdade, de que as coisas não funcionam desse jeito. Uma criança que não tem limites torna-se um adulto inseguro. Por outro lado, quando “treinamos” essa decepção desde pequenos, quando sabemos que nem sempre as coisas serão do nosso jeito, aprendemos a lidar melhor com essas frustrações. Na visão de Winnicott, a mãe não é boa, é suficientemente boa, se for muito boa também estraga.

Nós vivemos em uma sociedade em que há um culto do perfeito. Um belíssimo exemplo disso são as redes sociais: não se posta nada além do belo e feliz – muitas vezes falso. Há uma busca pela supressão dos sentimentos “ruins”, como a tristeza. Para quem é da área da saúde, já deve ter ouvido alguém querer que a terapia funcione como um analgésico, de imediato, a dor não pode ser vivida. De tal maneira, tem-se aumentado bastante os usuários de medicamentos psiquiátricos – há casos e casos, claro. A decepção é imprescindível para a nossa sobrevivência.

Graças à dor, a tristeza, os momentos ruins, nós conhecemos o outro lado: a alegria e a felicidade. Não haveria de ser tão especial se todos os momentos fossem bons. É a partir das coisas ruins que amadurecemos e que aprendemos. É bastante cômodo viver em uma zona de conforto, em que tudo é conhecido. O lado “ruim” é um grande propulsor de mudanças, muitas vezes para melhor.

Existe também a decepção de expectativas irreais. Por exemplo, a expectativa que se coloca em um companheiro de que será o príncipe encantado chegando montado no cavalo branco da Disney. Costumamos classificar pessoas e situações em boas e más. Mas dentro de todos existe uma pessoa imperfeita e que comete erros, que chora que é ser humano. Há erros e erros. Porém, uma pessoa não há de cumprir – e não tem a menor obrigação – em cumprir a expectativa de ser companheirx/esposx/filhx/pai/mãe/amigx ideal. Cada um é singular dentro do seu modo de ser.

Diante de tudo exposto, o que é melhor fazer? Não há melhor e pior. É individual para cada um. Porém, a busca por um equilíbrio, de não enxergar as vivências de maneira tão rígida, de não viver só no preto ou no branco. Devemos ter expectativas.

Sonhos e objetivos são propulsores da nossa motivação. Sem expectativa de algo não se vive. Viver de expectativa é viver no futuro ou colocando grandes responsabilidades em cima de outro. Decepcionar-se faz parte do caminho e é essencial para o nosso crescimento.

Texto de Juliana S. Farias 

julianaJuliana S. Farias é psicóloga formada pela Universidade Federal de São Paulo (CRP: 06/130659). Pós-graduanda em adolescência e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente, trabalha em uma equoterapia e atendimento clínico. É apaixonada por terapia assistida por animais. Acredita na psicologia como forma de promoção de qualidade de vida para todos.

1 Comments

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  1. […] o gancho do texto passado sobre decepção, hoje irei abordar um pouquinho sobre as dificuldades da maternidade. Amor de mãe é algo […]

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