Colação de grau, formatura e…

Esse texto é para você, meu caro recém formado ou que irá se formar muito em breve. Momento de colação de grau, formatura, festança, que bonito! E o que vem depois… Uma onda de insegurança que começa a surgir por volta do quarto ano de faculdade, se instaura com força pelo quinto ano e vira o caos quando chega o tão esperado momento do fim da universidade.

Antes e durante a graduação, fantasia-se muita coisa. Muita coisa que, às vezes, foge da realidade. E não há nenhum problema nisso porque a fantasia é a maior propulsora da nossa motivação. Uma pessoa que não fantasia e que não tem sonhos tem o colorido da vida, está sobrevivendo.

No momento após a euforia do ritual de passagem, surge um vazio existencial tão grande quanto o oco do canudo que é nos entregue na colação de grau. Salvo algumas exceções, como por exemplo, de pessoas que já tinham um futuro traçado e certeiro pela frente, a crise é inevitável. A idealização é frustrada e os sonhos não se concretizam da forma que era esperado.

No caso da psicologia, o caos que emana pode ser maior ainda, pois há uma impressão de que terminamos o curso e cinco anos não foram suficientes para abarcar tudo que precisávamos saber. Psicologia, caso não saibam, está entre as profissões que mais estudam, mesmo após formado. Além de uma escolha por abordagem, há de se decidir sobre qual(is) ênfase(s) melhor lhe contemplam: clínica, hospitalar, jurídica, esportiva, escolar… e tantas outras!

Graduar-se pode ser a grande segunda escolha na vida de muitas pessoas. A primeira foi a decisão do curso, a segunda será tentar esboçar qual rumo a vida tomará daquele momento em diante. O modelo atual de educação, de uma maneira geral, não nos convida a sermos sujeitos ativos. Há uma certeza de que há uma prova e um trabalho a ser entregue, de mais um ano letivo pela frente. A universidade acaba seguindo o mesmo modelo, por mais que seja permeada por desconstruções. Nessa perspectiva, escolher acaba sendo uma tarefa um tanto quanto difícil.

Parafraseando Natsuki Takaya: “Despedidas são sempre tristes. Sempre tão dolorosas. Despedidas existem para que novos encontros aconteçam. Todo final sempre traz um novo recomeço. (…) Enfrentar o medo de mais uma vez viver livre por este mundo, tendo como consolo apenas uma fagulha de esperança.” Ou seja, encerrar um ciclo tão importante, quatro a cinco anos, é vivenciar um luto por tudo aquilo que está deixando de ser. A perda da figura de estudante, o resquício adolescente, para iniciar a vida adulta de fato. Ter que abdicar amigos, professores, uma cidade diferente (para aqueles que se mudaram), uma rotina turbulenta  – mas de certa forma estável, o comodismo de ter alguém dizendo o que é preciso fazer e, por fim, abandonar a certeza pode ser bastante dolorido.

Ter que tomar as rédeas da própria vida faz com que se tenham sentimentos de tristeza, raiva, impotência e uma sensação de estar perdido. É difícil ter uma estabilidade financeira logo de início, principalmente para quem almeja clínica. Procuram-se outros caminhos do esperado, com algumas rejeições. Os boletos se acumulam, as dificuldades crescem. Olá, vida adulta, não era assim que eu te esperava.

Bohoslavsky, grande nome da orientação profissional e de carreira, diz que “o egresso da universidade e a escolha da especialidade constituem um momento tão crítico como o ingresso na universidade”.  Nesse momento, inicia-se um processo pela busca da identidade profissional, ou seja, enxergar-se legitimamente naquilo que exerce, fazer sentido com o que se trabalha, se ver como psicólogo.

Esse momento de crise é tão essencial quanto alcançar aquilo que se almeja. Essa (des)construção irá nos mobilizar para sair da zona de conforto e procurar alternativas frente aos problemas. Evidentemente, cometeremos alguns erros, mas nenhum profissional de sucesso alcançou o patamar sem ter esse começo.

Uma pesquisa de mestrado realizada em uma universidade  de São Paulo revelou que muitos ingressam diretamente em uma pós-graduação logo após a faculdade, talvez pelo modelo oferecido pela universidade, com incentivo a pesquisa e estudos. Dessa maneira, postergam o ingresso no mercado de trabalho, lidando com as dificuldades que a acompanham somente após a pós-graduação. No entanto, essa não é a realidade de outros cursos e outros egressos que ingressam no mercado de trabalho. Os resultados revelaram que muitos ingressaram na clínica e lidaram com a dificuldade de não ter um assim que egressaram.*

A dica? Comece pelas suas identificações, aquilo que mais gosta, faça uma pós-graduação que lhe faça sentido. Voluntarie-se em ONGs, associações e em instituições de bairro. Torne seu rosto visível, mande currículos, faça conexões com os profissionais, mantenha contato com os colegas da universidade. Procure locais em que se possa atender para ganhar experiência e segurança. Aprenda a se organizar financeiramente e dicas sobre empreendedorismo.** Faça o tripé de Freud: terapia, supervisão e estudos. Em suma, mantenha-se ativo e atualizado.

E lembre-se de relaxar! Sua parte já está sendo feita. 🙂

“(…) Acontece que o Trópico de Capricórnio e um diploma são muito parecidos porque são arbitrariedades que marcam de forma abrupta aquilo que se dá numa transição extremamente sutil. Mas é convencionado socialmente, cientificamente, que a Zona Tropical é diferente da Zona Temperada, e que um profissional é diferente de um estudante. Contudo, nós já éramos um pouco profissionais meses, anos atrás. E continuaremos sendo estudantes por muito tempo, eu espero que para sempre.
(…)
Olharemos para trás e enxergaremos o dia de hoje, e talvez só então perceberemos que definitivamente não estamos mais no lugar de onde partimos.” (Lucas Delfin)***

*Pesquisa de mestrado de Viviane Hatano  (Universidade Federal de São Paulo – Campus Baixada Santista), contribuindo com essa discussão desde minha preparação para o egresso da universidade.

** Excelente blog  https://www.mapadacarreira.com/blog-1/8-passos-para-uma-vida-financeira-de-adulto

***Discurso de colação de grau do curso de Psicologia realizado por Lucas Delfin Ferreira Rodrigues https://www.facebook.com/lucasdelfinpsicologo/

Texto de Juliana S. Farias 

julianaJuliana S. Farias é psicóloga formada pela Universidade Federal de São Paulo (CRP: 06/130659). Pós-graduanda em adolescência e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente, trabalha em uma equoterapia e atendimento clínico. É apaixonada por terapia assistida por animais. Acredita na psicologia como forma de promoção de qualidade de vida para todos.

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