“Casa de ferreiro espeto de pau”: quando o estudante de Psicologia não faz psicoterapia

A atuação na área clínica continua sendo o campo mais desejado pelos estudantes de psicologia. Conhecer o funcionamento psíquico e a subjetividade exerce fascínio e desperta o interesse do futuro psicólogo. Meira; Nunes (2005), afirmam que:

Segundo Melo (1975), […] dentre as áreas de atuação da Psicologia, a clínica estabeleceu-se rapidamente como sendo a mais nobre e marcou de modo intenso não somente os currículos, como também o imaginário social em termos da figura do psicólogo.

 Exercer a clínica exige formação sólida e continuada. Nesse cenário, o psicólogo utiliza tanto sua cognição quanto seu desenvolvimento pessoal como instrumentos de trabalho. De maneira mais objetiva, entendemos que a formação clínica é pautada em alguns elementos, como: (a) especialização em linha teórica que sinaliza o caminho mais apropriado para compreender e tratar o paciente; (b) análise pessoal (ou psicoterapia), o que permitirá separar as questões do psicólogo da queixa de seus pacientes. Além de superar questões pessoais, dificuldades ou problemas, submeter-se a psicoterapia permite compreender como se dá esse processo. É importante também (c) participar de grupos de estudos e de (d) supervisão de casos com profissional mais experiente. Deste modo, o psicólogo não se encontrará solitário no exercício da profissão. Ao contrário, contará com outra visão, a do supervisor. Ampliará a compreensão do caso e terá um canal de troca. Nesse sentido Haley (1998 apud Meira; Nunes (2005) defende que:

“No aprendizado da Psicoterapia é necessário integrar a teoria com a prática, sendo um dependente do outro, incluindo, também, a supervisão como ponto crucial para um bom resultado […].

Desenvolver um pensamento clínico é condição fundamental. Para tanto, faz-se necessário determinação e investimento ao longo do exercício da atividade clínica. Contudo, mesmo conhecendo “o caminho das pedras” muitos estudantes de psicologia postergam o início de sua psicoterapia. Como boa parte dos interessados em submeter-se a esse processo, o futuro psicólogo também pode levar bastante tempo entre reconhecer a importância de fazer psicoterapia até iniciar esse processo. O caminho pode ser longo em função da resistência presente nesse contexto.

No geral, é comum o sujeito alimentar o desejo (ou a ilusão) de manter o sofrimento longe de sua vida. No entanto, sofrimento e angústia são condições inerentes a existência humana, estando ou não em psicoterapia. Todavia, existe um caminho que pode levar a ressignificação de eventos que causam sofrimento e, deste modo, melhora a qualidade de vida de sujeito porque atenua o sofrimento. Como aponta Leão (1975):

Freud, ao descobrir o inconsciente, ao mesmo tempo em que anunciou a impossibilidade do fim do sofrimento humano, criou a Psicanálise e, com ela, a possibilidade concreta de através da fala, encontrar um sentido para a angústia produzindo um caminho de muitas e surpreendentes realizações. Não parece pouco e parece simples, entretanto, o anúncio da ideia de que, a partir da fala, era possível redimensionar o sofrimento, o que provocou, de um lado, a curiosidade e de outro, muita resistência.

Portanto, investir na pessoa do psicoterapeuta – o que se dá por meio da análise pessoal – é condição precedente ao exercício na prática clínica e determinante para o êxito de quem nesta atua. Para obter sucesso na clínica faz-se necessário assegurar a capacidade de compreender, acolher e não julgar o paciente, além de sentir-se livre para pensar, associar, elaborar e manifestar-se ao longo das sessões. Tudo isso será obtido com maturidade cuja fonte é a soma de fatores apontados ao longo desse texto: especialização, supervisão, grupo de estudos, e, principalmente, análise ou psicoterapia do psicólogo.

Coragem!

REFERÊNCIAS

LEÃO, Y. Resistência e Psicanálise. (1975). ˂http://www.torodepsicanalise.com.br/publicacoes/arq_00081.pdf˃. Acesso em 04 fev. 2017.

MEIRA, C.; NUNES, M. L. Psicologia clínica, psicoterapia e o estudante de psicologia. Paideia, 2005, n. 15, v.32), p. 239 – 343. Disponível em: ˂http://anakarkow.pbworks.com/w/file/fetch/99352575/psicoterpeuta.pdf˃. Acesso em 03 fev. 2017.

nv

Psicóloga clínica e intercultural; doutoranda com mestrado em Psicologia Clínica pela PUC SP; especialista em Psicoterapia Psicanalítica pela USP; docente do ensino superior; pesquisadora com trabalhos apresentados em congressos; livros e artigos publicados; experiência nas áreas clínica, recursos humanos e hospitalar.

Autora do livro Vida de Expatriado: carreira e subjetividade do executivo solteiro pelo olhar da psicologia. Zagodoni editora.

Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4233807D8

5 Comments

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  1. Prezada professora. Boa noite.
    Parabéns pelo artigo casa de ferreiro espero de pau. Gostei e agregou muito.
    Apenas uma colocação que de certo modo “perturba” alunos de Psicologia. O fato de se formar já dá legalmente aval para clínica ok, até aí tranquilo. A maioria dos professores recomendam assim como a professora no artigo quanto ao fato de se especializar numa abordagem. Na sua opinião sem uma especialização não deveria começar a atender pacientes mesmo estando formado?
    Desde já grato.

    Anderson Flávio / Responder
  2. Excelente colocação Anderson Flavio. Você tem razão, a titulação habilita o psicólogo a atender em consultório (hospital, escola, etc). Contudo, sabemos que é insuficiente para o exercício da clínica (e das demais áreas também) justamente porque o aluno aprende um pouco de muitas teorias e áreas, mas não é ofertado um conhecimento aprofundado sobre uma linha ou corrente teórica, o que somente se consegue na especialização. A graduação não forma o psicólogo clínico, mas o generalista. Por isso, para atuar na clínica faz-se necessário especializar-se. Mas, como colocado no artigo em questão, a especialização é um dos pilares da formação clínica. O psicólogo recém formado pode atender quando estiver em supervisão, fazendo sua própria psicoterapia, além de ter pelo menos iniciado a especialização (não precisa esperar terminar se seguir os demais passos). Do contrário, enfrentará importante grau de dificuldade para ajudar efetivamente seu paciente.
    Abraço.

  3. Sábias palavras, Anna Silvia Rosal!

    Cecilia Côrtes Carvalho / Responder
  4. Obrigada cara Cecília.

  5. Interessante.

    Vanessa / Responder

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