Boca

Boca,(…)Pequena abertura para o deserto”  (Manoel de Barros)

 

Caso você tenha lido o conto Tripas de Chuck Palahniuk há de concordar com a ríspida sacada que ele faz ao descrever a ligação da boca com nosso órgão mais vulgar em nomenclatura e essencial em natureza. Ou seja, nosso excretor é uma extensão da nossa boca. Começar assim esta coluna é intencional e estratégico – relaxa, vai ser rápido! – embora essa menção te pareça inconveniente, ou politicamente incorreta, de se fomentar em um site de psicologia, sabemos que o sarcasmo disso carrega uma reflexão filosófica – Não me refiro à filosofia acadêmica, mas aquela de boteco, que todo mundo faz.

No livro Sapiens Yuval Noah Harari escreve que “Os órgãos evoluem para executar uma função específica, mas, depois que existem, podem ser adaptados para outros usos também. A boca, por exemplo, surgiu porque os primeiros organismos multicelulares precisavam de uma forma de levar nutrientes para o corpo. Ainda usamos a boca para isso, mas também a usamos para beijar, falar, e, se formos o Rambo, para puxar o pino de nossas granadas de mão”. A importância da boca carrega consigo uma funcionalidade fatal, não apenas no que tange a absorção de alimentos ao corpo, mas em sua utilidade como instrumento de vida e morte, conforme a Bíblia, em Provérbios. Talvez, e por usá-la com tanta frequência, você ainda não tenha se ouvido falar, mas se algum dia fizer esse exercício, como forma de entendimento e reflexão, perceberá quanta coisa suja e “inadubável” pode ter saído da sua boca para vida alheia.

Que uma palavra pode destruir relacionamentos, e confianças, creio que você já saiba, e mediante esse saber pondera bastante o que diz, para quem diz e quando diz. Afinal com a boca se ama, e com ela também se odeia.

Objeto de estudo, e lugar de trabalho dos dentistas, ela é uma pequena abertura para o deserto, quer seja um deserto de quarenta dias, ou de quarenta anos. É bem provável que, como eu, você já tenha destruído um momento bom, com um rápido gesto de lábios que resultou num som e formou uma frase pontual. A palavra ida não volta; funciona como um tiro que atinge os corpos, mas para esses corpos não há colete balístico.

A boca é instrumento de prazer, de socialização, de destruição e a não ser que desista de usá-la você ira minar um mundo com o que faz com ela. Preocupar-se com o que entra pela boca é essencial, porém, e não menos vital, a preocupação com o que sai dela lhe abrirá portas; ou pode fazer com que todas se fechem, no instante em que você decide abri-la e fechá-la.

Texto de Willian de Andrade

willWillian de Andrade – Graduando em Filosofia na Universidade federal de São Paulo, escritor e autor, do livro de poemas O Intervalo do Teatro, Willian Andrade é podcaster e colunista no site Psicocast desde sua fundação. Leitor constante dos escritores tidos como malditos e da literatura underground, dedica seu tempo ocioso na construção pessoal de repertórios baseados na arte escrita e na música contemporânea.

1 Comments

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  1. Muito interessante!
    Falar da boca que é um instrumento de amor e ódio é uma reflexão bastante contemporânea, pois estamos constantemente nós comunicando no trabalho, nas reuniões familiares e de amigos, bem como na escola e igreja.
    Lugares onde devemos dar o nosso melhor nos fazendo entender de maneira clara, porém sem a necessidade de abandonar a crítica mas sabendo que devemos fazê-la com humildade e inteligência para não destruir nossos vínculos afetivos, amizades, contatos profissionais e até mesmo destruir um elo de confiança que demorou anos para ser construído!
    O exemplos de dois grandes Educadores que me inspiram muito são Mário Sérgio Cortella e Clóvis de Barros Filho!

    João Bil / Responder

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