Amor versus Posse

O amor é o estado em que melhor as pessoas veem as coisas como realmente são”. Aristóteles.

 

Agora, o que o amor tem a ver com posse? A palavra posse, vem do sentido de se apossar, ou no caso, apropriar-se de algo/alguém.

Em alguns relacionamentos, amor e posse transformam-se em uma coisa só, como se um não se dissociasse do outro.

Quando observamos a frase acima do pensador, logo pensamos no amor sendo um pouco racional, ou, se interpretarmos de outra maneira, podemos pensar que o amor transmite clareza para quem está amando, sem gerar dúvidas, já que podemos ver as coisas como realmente são.

Na realidade, quando vemos os relacionamentos, podemos também ver o ciúmes, que atrela-se a insegurança, desconfiança, incertezas, medo de perder a pessoa amada etc.

Esse ciúmes pode ser brando, e todos em algum momento podem senti-lo de maneira natural, podendo ser através de um acontecimento real, como também por um sentimento, sem ter algo de concreto. Afinal, ele não surge de uma forma racional e sim emocional.

No caso, quando esse sentimento vai se transformando, saindo da forma “branda”, podemos começar a observar as questões que envolvem a posse, citada anteriormente. Ao se tratar do ato de se apossar, eu posso ver o outro como “meu”, ou seja, minha propriedade?

Sendo assim, se algo é “meu”, então tenho o total domínio e controle sobre. Por exemplo, se eu tenho um carro, posso ter ganhado ou comprado, em ambos os casos vejo como meu objeto. Agora, ao se falar do relacionamento com o outro, pode-se pensar que você conquistou o sentimento do outro, no caso, não ganhou e nem comprou, e esse outro não é um objeto inanimado e sim um ser humano que possui o livre arbítrio.

Entretanto se esse outro, sendo namorado/a, marido/esposa, parceiro/a, for visto no sentido de posse, estará sendo visto como objeto, similar a um carro, citado no exemplo acima. Mas como foi falado, o ser humano tem a liberdade de fazer escolhas, e muitas vezes o outro não concorda com essas escolhas, ainda assim, todos tem o direito de fazer, afinal não são objetos e sim seres pensantes.

O sentimento, de ver a pessoa amada, como objeto de posse, pode chegar a casos extremos e levar a situações mais sérias. Através das sensações que impulsionam a raiva, pelo medo de perder o controle. Podendo surgir:

  • Violência Passional:

A violência, pode ser moral, sexual, psicológica ou física. Quando se trata do campo passional, essa agressão surge por conta do medo em perder a pessoa amada, de ser traído ou no caso, pelo medo em perder o controle sobre o outro?

Essa violência tem duas maneiras de aparecer, pode ser de forma reativa, ou seja, por impulsividade. Podendo ocorrer no “calor da emoção”, em que, no momento da discussão do casal, um possa agredir o outro, sem raciocinar o ato. Agora, o outro tipo chama-se violência vingativa, nesse caso, a violência é premeditada, sendo pensada e planejada.

      Dentre essas agressões, podem surgir os chamados crimes passionais, que finaliza em um “desfecho extremo” e trágico, no formato de assassinatos, homicídios.

Além da agressão ao outro, temos o sofrimento psíquico, podendo gerar um adoecimento interior. Isso acomete algumas pessoas em processos de rompimentos/separações, em que, surgem sentimento de perda e melancolia. Em muitos casos, por mais que vivenciem esses tipos de sensações, passado um determinado tempo, muitos se restabelecem, “dão a volta por cima”. Mas em alguns casos gera-se algo mais sério e alarmante.

  • Depressão

A depressão vem com um nível mais alto do sofrimento psíquico. Ao se tratar de separações nos relacionamentos afetivos, o sentimento de perda se torna o de abandono. E essa ruptura, transformasse em inquietação, sensação de não pertencimento. Muitas vezes a pessoa durante um relacionamento vive tão atrelada ao outro, que quando gera o rompimento perde-se sua própria identidade, não sabendo mais seu lugar no mundo. Tendo sensações de ansiedade, angústia, fazendo com que muitas vezes não se alimente, ou se alimente muito, fique sem dormir, ou durma demais, perde-se a vontade de fazer as coisas, que antes gostava.

Se por algum momento, se perceber dessa forma, ou reconhecer que alguém está passando por isso, é de extrema importância procurar uma ajuda profissional.

  • Suicídio

O suicídio, que é o ato de tirar a própria vida. Nessa situação a agressão não é com o outro e sim, consigo mesmo, surge a “mutilação interna”. O nível de sofrimento psíquico chegou no auge extremo. A pessoa perde a vontade de viver, nada mais tem gosto e sabor, e a morte vem como uma alternativa, para tirar a dor que está insuportável. Sendo que de um modo concreto, isso jamais seria uma solução, e sim um ato desesperador, por conta da pessoa estar muito mergulhada em seu sofrimento.

Por isso, mais uma vez, é de extrema importância a ajuda profissional, nunca um pedido de socorro é uma forma de chamar atenção e sim de demonstrar o que não está bom.

Por fim, podemos ver como é diferente uma coisa da outra. No caso, “Quem ama cuida”, mas o cuidar não é se apossar, é na verdade ajudar, compartilhar, gerar afeto, ser companheiro do outro. É caminhar paralelamente e não na frente e nem atrás, podendo ver o outro como igual, tentando não perder sua identidade e nem tirar a do outro. O exercício de autorreflexão e a conversa constante com o parceiro/a, podem sempre ser muito positivo para todos os relacionamentos.

Instagram: @Partiufalardaquilo

Imagem do texto : Danbo.


okMichelle M. Santiago
é Psicóloga formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. CRP: 06/128723. São Paulo-SP.

“Em minha formação, sempre tive teóricos que me inspiraram, dentre eles está: Sigmund Freud, com a psicanálise; Carl Gustav Jung, com a psicologia analítica; Jacob Levy Moreno, com o a psicoterapia de grupo e o psicodrama. Sendo de grande base para minha experiência profissional como psicoterapeuta. Possuo grande paixão pelas artes de maneira geral, principalmente quando se trata de cinema e teatro, pois para mim vejo o quanto ‘A arte representa a vida’ e nos ensina. Adoro escrever e tratar de temas envolvendo as relações humanas de maneira geral, como amor, família, amigos, também voltado a sexologia, bem estar etc.

A psicologia para mim é mais que uma ciência, é ser humano.”

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