ABNT: sua relação é de amor ou ódio?

Uma disciplina extremamente importante em qualquer graduação é a que apresenta as normas técnicas da escrita acadêmica. Esta matéria pode receber diferentes nomes, mas seu conteúdo será o mesmo. Sua importância é sustentada em um dos princípios que orientam a academia: distanciar o aluno do senso comum e inseri-lo no contexto da ciência.

Contudo, a necessidade de seguir as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) – adotada no Brasil – costuma causar, em grande parte dos universitários brasileiros, reclamação e expressão de desdém. Essa parcela de alunos entende desnecessário acata-las. Dizem não almejar carreira acadêmica e, por isso, tais normas tornam-se desnecessárias, “uma bobagem”.

Algumas hipóteses se manifestam ao tentar analisar esse cenário: (1) imagino se essa aversão estaria relacionada ao modo como a importância e a função da disciplina é apresentada em sala de aula. No entanto, logo penso que seria necessário um batalhão  de docentes ministrando-a com alguma displicência, o que enfraquece a hipótese; (2) Outro motivo considerado é a possibilidade do baixo empenho na vida acadêmica como observado na atualidade, sem generalizar, mas tão comum como jamais fora. Isso me faz lembrar algumas falas, como: “professora estou aqui só para pegar o diploma porque minha empresa exige.” Ou ainda, “não sei porque tanto trabalho”; (3) enquanto psicóloga não poderia ignorar a possibilidade de um traço narcísico, algo que pode alimentar a seguinte compreensão “escrevo tão bem. Todos entendem. Não precisa de tantos detalhes”. Seria um misto de uma expressão narcísica e o desconhecimento sobre o que é um texto claro, objetivo e coerente. O tipo de texto que se o pesquisador/docente não se esforçar para encerrar não conseguirá concluí-lo, pois costuma achar que pode ser melhorado.  E quase sempre pode.

Talvez a segunda hipótese nos revele parte dos motivos que explicam essa indagação. A escrita acadêmica gera um trabalho extra se comparado ao modo livre de elaborar trabalhos. É exatamente esse ir além da escrita comum que assegura a compreensão do material produzido na academia. As regras da escrita acadêmica foram elaboradas para facilitar a compreensão do leitor à medida que o autor segue um padrão conhecido, declarado nos manuais da ABNT.

Contudo, encontrar uma explicação somente na segunda hipótese reduziria os motivos que explicam o sentimento negativo em torno da escrita acadêmica. Desta forma, acreditamos que – em medidas distintas – as três hipóteses sustentam a ojeriza as normas acadêmica dirigidas a escrita.

Tal padronização facilita ao oferecer um caminho possível de ser entendido pelos leitores e seguido pelos escritores.  Já imaginaram se cada autor escrevesse em um formato diferente? Certamente não teriam parâmetros para verificar a qualidade de seu próprio texto e, portanto, levariam mais tempo, teriam mais “trabalho extra”, até concluir um texto satisfatório.

Em oposição, quem percebe a importância da normatização da escrita integra o grupo que “ama” a ABNT e demais normas (APA, Vancouver, entre outras). Infelizmente, esse coro ainda não engrossou no Brasil.

Fica aqui a ideia de explorar esse tema por meio de uma pesquisa acadêmica e, desse modo, ampliar e aprofundar nosso conhecimento sobre os sentimentos despertados pela necessidade de seguir a ABNT.

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nv-200x300 Anna Silvia Rosal de Rosal é psicóloga clínica e intercultural; doutoranda com mestrado em Psicologia Clínica pela PUC SP; especialista em Psicoterapia Psicanalítica pela USP; docente do ensino superior; pesquisadora com trabalhos apresentados em congressos; livros e artigos publicados; experiência nas áreas clínica, recursos humanos e hospitalar.

Autora do livro Vida de Expatriado: carreira e subjetividade do executivo solteiro pelo olhar da psicologia. Zagodoni editora.

Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4233807D8

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