A Sociedade Disciplinar do Panoptismo.

Panoptismo, termo pouco conhecido por entre aqueles que vivem conosco neste emaranhado de loucura que chamamos de sociedade, tampouco o é por nós, que nos interessamos pela psicologia, não que tal desconhecimento teórico diga respeito a um real desconhecimento, como esclarecerei a seguir.

Mesmo que, por infelicidade, seja possível ponderar ser esta uma falha em nossa grade curricular.

E somente para dar luz a este termo que é central para o artigo, discorrerei sobre sua origem, bem como farei menção a dois que com ele trabalharam e o desenvolveram.
Jeremy Bentham projeta uma grande estrutura em cujo centro alocar-se-ia uma torre de vigia circundada por primeiramente um pátio e depois um anel de salas dispostas umas sobre as outras em fileiras.

As salas seriam fechadas por um vidro que permitisse perpassar luz por entre suas extremidades, de modo que fosse possível para o vigia da torre central observar as sombras que de lá se projetassem, mas que, ao contrário, não fosse possível para os que lá estivessem visualizarem a figura central do vigia.

Tal configuração permitiria então um controle total do que quer que fosse a atividade realizada pelo indivíduo na sala.

Bentham nomeia esta estrutura de Panóptico.
Michel Foucault, por sua vez, em suas múltiplas horas diárias de pesquisa, encontra essa ideia ainda menos conhecida na época e vislumbra, tal como Freud ao ler Édipo Rei, a possibilidade de usá-la como meio para descrever noções mais profundas que subjaziam-se em seus pensamentos.

O Panoptico, como poderia se supor por um raciocínio inocente, não se travava de uma prisão, apesar de poder o ser. Se travava de uma estrutura que poder-se-ia configurar de acordo com pretensões judiciais e senatoriais, ou mesmo, fabris e escolares. Isso mesmo! Uma escola! Foucault chamou a atenção para a ideia de que um dos aspetos mais importantes, que brilhantemente(desculpem pela tendenciosidade escarada) descreve em seu livro “Vigiar e Punir”, seria a consciência dos “pensionistas” de que estavam sendo vigiados e que isso é antes uma forma de controle, do que uma forma de punição. Controle este que se dá de maneira disciplinar, arquitetando a moralidade dos indivíduos.
Assim transforma-se a estrutura panoptico no conceito de panoptismo.

Não por coincidência surgem produções artísticas do gênero Matrix, em que máquinas comandam a raça humana em uma realidade virtual cujo único objetivo é obscurecer a dura realidade que é a drenagem de sua vitalidade. Mas aqui não posso lançar mão de tamanha conspiração como meio para expor o panoptismo.  Trata-se de estruturas disciplinares que corrigem e punem os indivíduos e permeiam a sociedade sob diversas formas distintas, mas com o mesmo objetivo, em relações de poder.

Este poder que se configura relacionalmente, como relações de poder, não está aqui ou ali, mas sim, encontra-se nos dos diálogos, na arquitetura dos prédios, na elaboração de produtos, na estética, nos jogos, nos dogmas, nas aspirações individuais ,como bem descreve nosso colega João Eras em seu artigo .

Dentre estes que não posso deixar de designar para a mesa dos réis, encontram-se o saber jurídico, escolar, médico, psicológico e psicanalítico! Sob formas específicas, disciplina-se os indivíduos sobre os preceitos de verdade cada qual defendido por seu entender, mas sempre na mesma relação de poder disciplinar, em uma estrutura panoptica.
A Sociedade Disciplinar surge ao mesmo tempo que tais saberes começam a ser instituídos.

É por meio deles que é possível controlar a população, enquadrar nas classificações mais convenientes e, pois, estabelece-los em seu lugar na estrutura social. E como não poderia deixar de o ser, com a intenção de provocar os instintos mais primitivos, e mais especificamente nosso, enquanto interessados em psicologia, finalizo meu texto da seguinte maneira(sem nem uma originalidade). Seria, pois, a tríplice edipiana mais uma forma de disciplinar o que somos do que propriamente uma explicação dos fundamentos de tal?
E como uma epígrafe invertida, em que o sentido é mais provocativo do que ilustrativo, cabe a seguinte frase de Foucault:
“O Homem é uma invenção recente cujo fim está próximo”

 

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Vinicius é estudante de Psicologia e amande de Filosofia, dedica parte do seu tempo a indagar aquilo que parece evidente mas que pode conter seu lado obscuro.

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