A constituição psíquica

…a partir da relação com o outro.

Diversas são as teorias que versam sobre a importância da relação com as outras pessoas para que o ser humano se desenvolva e se constitua, formando seu caráter e sua personalidade, para que possa conviver em sociedade seja no campo da filosofia, da psicologia, da sociologia, da antropologia ou outras diversas áreas.  O que trazemos aqui é o que a psicanálise articula sobre a importância da relação com o outro para que se funda um sujeito.

Sigmund Freud nos textos ‘Além do princípio do prazer’, ‘Projeto para uma psicologia científica, ‘Os instintos e suas vicissitudes’ explica que o bebê nasce desarticulado, sem recursos para enfrentar as tensões que o acometem, então ele recorre ao choro, que é interpretado pelo desejo materno, e que ao investir cuidados ao bebê, o ajudará a abrandar suas tensões. De acordo com o autor, apenas a ação específica do adulto é que será capaz de aliviar a tensão que toma o bebê, cujo sem auxílio, não haveria possibilidade de acontecer, pois o recém-nascido ainda não conta com recursos próprios para aplacar sua tensão.

No caso do bebê, que nasce desamparado e necessita da intervenção externa, com o auxílio de um ser humano adulto, será possível garantir sua sobrevivência a partir dos cuidados corporais e facilitar o contato com o mundo externo, é o que Freud chama de ações específicas, pois a partir dessas ações é que o bebê experimentará a aproximação do objeto sexual, o contato com o mundo externo e poderá contar com este adulto para depender dele. Sobre o desamparo primordial, Freud aponta para o papel de um adulto, que sustentará e intermediará o contato com o mundo externo e Lacan destaca que o mundo externo é o outro, e que a mãe, durante os primeiros cuidados direcionados ao seu bebê transmitirá a cultura, história, linguagem e demais características que já estão presentes no mundo antes do nascimento da criança. Portanto a mãe exercerá para a criança a função do Outro, enquanto alteridade para o bebê.

 O que a psicanálise nos ensina é que no início da vida do bebê, as experiências que ele vivencia a partir dos cuidados e enquanto é amparado pelo adulto, facilitará para que a criança se identifique com este humano e se reconheça como humano a partir da imagem de seu cuidador. Num primeiro tempo o bebê está colado à imagem do adulto e totalmente dependente dele, e no segundo tempo o bebê começa a se perceber como diferente do outro e passa então a elaborar a separação deste outro; é neste momento que passa a adquirir sua independência do outro e a emergir enquanto sujeito.

Imagem do post : Vladimir Kush

sabrina fotoSabrina Vicentin Plothow é psicóloga, psicanalista. Mestranda em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento  Humano no Instituto de Psicologia da USP. Especialista em psicologia Clínica pelo Conselho Federal de Psicologia. Atuação na área clínica, em pesquisa e como docente.

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