13 Reasons Why: Um viés da psicologia

A série que viralizou nas duas últimas semanas é intensa e suscita muitos temas considerados tabus: suicídio, bullying, estupro, isolamento social, depressão na adolescência, machismo e diversos outros tipos de violência. É uma série que recomendo fortemente para todos os psicólogos, psiquiatras, professores, pais e responsáveis e quem mais estiver imerso no cotidiano escolar e adolescente. Porém não recomendo de jeito nenhum para quem tenha passado por alguma situação mencionada acima ou que considere estar em uma tristeza profunda porque a série tem diversos gatilhos. Inclusive, muitos episódios têm avisos para não continuar assistindo porque há cenas fortíssimas. Mesmo que não tenha sofrido diretamente com os temas elucidados, é difícil assistir, principalmente para telespectadores do sexo feminino. É de suma importância que esses assuntos entrem em pauta nas discussões, especialmente no ambiente escolar.

 Em primeiro lugar, é preciso ter em mente o contexto adolescente do qual a série está inserida. E o que isso significa? Como a própria protagonista Hannah diz, somos seres essencialmente sociais, mas o adolescente tem alguns propulsores de motivação: convívio social e a expectativa de que um futuro maravilhoso o aguarda. Um adolescente (ou criança) que esteja isolado, que não tenha laços (e não meramente conviva) com seus pares, precisa estar na atenção daquele que os assiste, pois é extremamente prejudicial para seu desenvolvimento, qualidade de vida, autoestima e saúde psicológica. Adolescente gosta de andar em bando, ter muitos amigos, se enxergar através do outro igual.

Há um imenso despreparo da nossa sociedade, de maneira geral, com os adolescentes. A maioria, ao longo dos anos, constrói uma muralha “contra adultos”. O que passa em seus cotidianos, suas cabeças e seus corações tornam-se assuntos de exclusividade quem compartilha de sua idade, e muitas vezes de seu gênero, quando conseguem compartilhar. Obviamente que pode (e deve) haver diálogo com seus pais e outros adultos, mas muito difícil aquele que permite que mergulhe em seus medos, angústias, amores, desamores…Ficamos na beira, com as ondas tranquilas sem nos darmos conta da tempestade em alto mar. Para eles, já nascemos adultos e não os entenderemos – de fato, muitos esquecem  o que é passar por essa fase – e nossas vidas acabam por parecer um tanto quanto certas na visão deles. Daí a importância dos pares, que formam uma rede de apoio essencial.

 Visto isso, o adolescente dificilmente busca por uma ajuda do outro lado da muralha, dos adultos que nada sabem sobre este universo. De fato, ser adolescente dos anos 70/80/90 – que deve ser uma das principais faixas etárias que estão em contato com esses jovens –  é um tanto quanto diferente de ser adolescente em 2017. Quando procuram, pode ser que estejam desesperados ou porque possui uma consciência do que pode ser feito por eles. Quem trabalha com esse público, certamente já recebeu um que foi arrastado pela mãe. Dessa maneira, é preciso um maior preparo da escola, dos pais, da sociedade como um todo para estarmos todos atentos a pequenos sinais, não só aqueles que borbulham, para que possamos prevenir os grandes danos citados no primeiro parágrafo. Não adianta parar na pergunta “tudo bem?”, que  você ouvirá “sim, está tudo bem.

Outra questão importante é o bullying. Para começar, muita gente diz que na sua época todo mundo tinha apelido e todo mundo hoje sobreviveu. Sublinhando: sobreviveu. O mundo está chato, tudo virou bullying! Ou quando pensa em bullying tem ideia que são só os atos extremistas. Mas essa definição do que vem a ser bullying é muito tênue. O que estamos considerando como bullying e como isso tem afetado nossas crianças e adolescentes? E o bully, ou seja, a pessoa que pratica a violência, o que a leva fazer isso e por que o faz? Qual a repercussão disso tudo ao longo da vida de uma pessoa? Ações e palavras, não necessariamente vindas de uma só pessoa ou um grupo, podem ser devastadoras para qualquer integridade, no sentido mais amplo da palavra.

Já a depressão profunda que Hannah vive não é percebido pelos outros. Há um estereótipo de que a pessoa que tem depressão é aquela que não sai da própria cama, chorando e sem motivação para nada. De fato, há pessoas que fiquem nesse quadro. Hannah sorri, conversa, vai para a escola, trabalha. O que pode ter de errado com ela? Dificuldade em fazer e manter amigos, isolamento social, falta de interesse em atividades extracurriculares, queda no rendimento escolar, desmotivação são alguns dos sinais sutis.

Posso me assegurar que o machismo matou Hannah em 13 reasons why. Meninos que se autorizaram a rotular, estereotipar, apropriar-se do corpo, diminuir, humilhar e violar Hannah, minando suas razões de vida e esperança. Padrões de beleza e de modos de ser que assolam autoestimas. Além de garotas que reproduziram o machismo, mesmo sendo vítimas da mesma situação. Como já dito no texto do Dia da Mulher, o machismo mata – literalmente  ou figurativamente – milhares de meninas e mulheres por dia. Lembra dos propulsores de motivação? Ela já não tinha amigos, lhe tiraram o sonho, a esperança e o futuro. Uma pessoa que enxerga um ato tão extremo como saída, sofreu de maneira igualmente extrema.

A série choca, culminando em discussões advindas de profissionais de saúde, considerando que veicular cenas tão explícitas é uma atitude um tanto quanto irresponsável. De fato há esse lado e repito: não assista se há dúvidas que o conteúdo poderá lhe fazer mais mal do que pode aguentar.  A questão aqui é outra. A série nos provoca a pensar o que estamos fazendo um com os outros, começando pelos jovens, o que está sendo ensinado, que modelos de relacionamento estão sendo reproduzidos,  se estamos assistindo ou enxergando as suas necessidades. É preciso olhar para tudo isso, que acontece embaixo dos nossos narizes, todos os dias. É preciso criar-se políticas públicas, informar e dialogar para que não haja mais Hannahs.

Segundo o  o Centro de Valorização da Vida (CVV), associação civil sem fins lucrativos voltada à prevenção do suicídio no país, solicitações de auxílio ou conversas por mensagens e e-mail para a organização estão em crescimento. Muitos dos temas podem ter passado como bobeiras, dramas ou uma fase que irá passar, mas merecem atenção. Procure ajuda, seja ela qual for. Por último, mas não menos importante, 13 Reasons Why nos provoca com “Precisa melhorar… O modo como nos tratamos e cuidamos um dos outros. Precisa melhorar de algum jeito.”

julianaJuliana S. Farias é psicóloga formada pela Universidade Federal de São Paulo (CRP: 06/130659). Pós-graduanda em adolescência e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atualmente, trabalha em uma equoterapia e atendimento clínico. É apaixonada por terapia assistida por animais. Acredita na psicologia como forma de promoção de qualidade de vida para todo

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